* por Douglas Teixeira
Foi a despedida do mito são-paulino
Como qualquer relação, a que se dá entre torcedor e clube de futebol é feita de altos e baixos. Por isso, é preciso que a paixão esteja sempre viva para que a relação seja sólida. O amor por um clube pode surgir por hereditariedade, por encantamento ou por identificação. Mas ele se consolida de fato quando o torcedor vê em campo jogadores que dignificam o nome de seu clube, que não medem esforços para vencer e que deixam a alma em campo.
Foi em 1992, quando vi pela primeira vez o São Paulo de Telê Santana jogar, que me encantei. Não demorou para o encantamento virar paixão. E a identificação veio quando percebi que aquele era um clube diferente. Era um clube de vanguarda, audacioso e ambicioso. Além de vencer seus principais rivais, ele queria alçar voos mais altos, enfrentar os adversários mais fortes e ser reconhecido mundialmente.
Assim meu coração se tornou tricolor. Vendo Telê Santana, Zetti, Ronaldão, Ronaldo Luiz, Gilmar, Victor, Cafu, Pintado, Dinho, Doriva, Toninho Cerezo, Raí, Leonardo, Juninho, Muller, Palhinha e tantos outros. Um esquadrão que, merecidamente, conquistou a América e o mundo por duas vezes consecutivas.
A partida realizou o sonho dos tricolores
Os anos foram passando, o São Paulo venceu campeonatos estaduais, interestadual e também viveu um período sem títulos, mas sempre se manteve como um clube de ponta, desportivamente e administrativamente. Era respeitado em qualquer lugar do mundo e honrava sua história dentro de campo, ao passo que via surgir aquele que viria a se tornar o seu maior ídolo: Rogério Ceni. Goleiro de técnica apurada, à frente de seu tempo, que conquistaria vários títulos e que viria a quebrar inúmeros recordes. Dentre eles, o de maior goleiro artilheiro da história do futebol mundial. Um autêntico são-paulino, dentro e fora de campo.
Em 2005, o tricolor tornou-se o primeiro clube brasileiro a erguer a Libertadores da América pela terceira vez e chegar ao topo do mundo também pela terceira vez. Rogério Ceni, Lugano, Junior, Cicinho, Mineiro, Josué, Danilo, Souza, Luizão, Amoroso, Aloisio e outros tantos faziam parte de um time que não era como o esquadrão de Telê Santana, mas tinha força e alma. Aquela equipe ilustrava bem o que era “jogar com o coração na ponta da chuteira”. Isso era suficiente para manter viva a paixão de qualquer torcedor, independente de títulos.
Em cada gol, um efeito especial
O São Paulo ainda conquistaria três campeonatos brasileiros consecutivos em 2006, 2007 e 2008 e alguns novos ídolos surgiriam naquele período. O principal deles, sem dúvida, foi Muricy Ramalho. O antigo assistente de Telê Santana e ex-jogador do clube voltou ao Morumbi após quase dez anos para levar o clube ao hexacampeonato brasileiro. Sua postura à frente do time é capaz de manter viva a paixão de qualquer torcedor.
Nos últimos três anos, apesar do crescimento patrimonial e alguns frutos colhidos de seu futebol de base, o São Paulo conviveu com crises dentro e fora de campo. Algo inimaginável para um clube que sempre foi exemplo. Os rivais cresceram, se reinventaram, e o tricolor, como sabiamente disse Rogério Ceni, parou no tempo.
Zetti cobrando pênalti
Desde 2012, depois da
final patética da Copa Sul-Americana, o que se vê no São Paulo são jogadores sem identificação com o clube, que não têm respeito pela camisa que vestem e nenhuma ambição. Além disso, as goleadas sofridas para rivais, as brigas entre dirigentes, os escândalos de corrupção envolvendo o presidente e as trocas constantes de técnicos abalaram a relação clube-torcida. E o que mais agrava a situação é o fato de o torcedor comum quase nada poder fazer diante disso. Sem direito de participar da vida política do clube, que tem um sistema arcaico e nada democrático, ele se vê cada vez menos envolvido.
Mas a mística do clube é tão grande que, mesmo diante da crise institucionalizada, ainda há motivos para manter viva a paixão. A reunião de dezenas de mitos da história tricolor, na despedida do grande mito Rogério Ceni, foi a maior prova de amor que o São Paulo Futebol Clube poderia oferecer a seu torcedor em anos de relação estremecida.
Comemoração do gol de pênalti do Zetti
A torcida que viu, dentre outros momentos emocionantes, Zetti marcar um gol de pênalti e Raí repetir, num quase gol, a cobrança de falta que originou o tento contra o Barcelona em 1992, retribuiu com uma festa à altura. Tremulou bandeiras, acendeu sinalizadores, entoou cantos de reverência ao clube e a seus ídolos. Foi uma festa impossível de ser repetida em jogos oficiais realizados em todo o Estado de São Paulo. Infelizmente!
Assim eu resumo o que aconteceu na noite do último dia 11 de dezembro. Seria impossível descrever fielmente a série de sentimentos que a festa de despedida de Rogério Ceni provocou. Ver em campo as duas equipes que colocaram o São Paulo no topo do mundo por três vezes certamente fez o coração de todo são-paulino bater mais forte. Eu estive lá. Aquela foi minha Copa do Mundo. Depois de muito tempo, me vi representado.
A torcida abrilhantou ainda mais o espetáculo
Gritar os nomes de Raí, Zetti, Cafu, Rogério Ceni, Pintado, Dinho, Telê Santana, Muricy Ramalho, Lugano e até de Doriva, merecidamente lembrado durante a partida festiva, foi suficiente para que, por uma noite, todos os tricolores recordassem o passado não tão distante e esquecessem as mazelas vividas nos últimos anos.
São-paulino, nos momentos difíceis, lembre-se do que aconteceu na noite do dia 11 de dezembro de 2015. Aquela festa foi uma prova de amor a você. Ao rememorar aquele momento, certamente, você se apaixonará um pouco mais por este gigante chamado São Paulo Futebol Clube.
Todos jogadores agradeceram a presença dos torcedores
* Douglas de Araujo Teixeira é jornalista, professor e dono de um coração luso-tricolor. Um coração que bate pelo São Paulo Futebol Clube e pela Associação Atlética Portuguesa, a Portuguesa Santista.