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Os cinco gols brasileiros mais marcantes do novo milênio

Por Diely Espíndola
Foto: Fifa.com

Ronaldo comemorando gol contra a Alemanha

Os anos 2000 foram de grande importância para o futebol brasileiro. Foi neste milênio em que grandes acontecimentos marcaram o futebol tupiniquim, como o rebaixamento de grandes clubes pela primeira vez, a implementação dos pontos corridos no Brasileirão, o último título mundial da Seleção... enfim, não faltaram momentos para fazer dos anos 2000 em diante, anos de imensa movimentação e emoção na torcida brasileira. 

E, nestes contextos, não podemos deixar de falar do momento ápice do futebol, aquele que todo torcedor busca, que é capaz de unir povos, culturas, e embalar multidões: o gol. 

Antes de mais nada, gostaria de ressaltar que este material é um compilado baseado na minha opinião, e que pode não ser a mesma que a sua. Também não é uma opinião imutável. É apenas uma seleção de 5 dos mais marcantes momentos em que a bola estufou a rede, e entrou para a história do futebol.

5 - A cavadinha de Loco Abreu em 2010


Tudo bem, aqui te dou a chance de me chamar de clubista. Não te culpo. Mas como botafoguense, eu não poderia deixar de fora esta passagem da história recente do Alvinegro carioca. 

Os últimos anos que antecederam este campeonato carioca, não haviam sido fáceis para o Botafogo. Em meio à polêmicas de arbitragem decisivas, más atuações e em algumas ocasiões, superioridade do adversário, o Botafogo havia perdido três títulos estaduais seguidos para o Flamengo, que acabava por se tornar o principal rival do Glorioso em terras cariocas. 

Entrávamos em 2010 com um atacante idolatrado, querido e decisivo. Mas do outro lado, tínhamos Bruno defendendo a meta rubro-negra, e que vivia grande fase. Tínhamos o Império do Amor como adversário, composto por Adriano e Vagner Love, quase imparáveis. O coração do botafoguense, desconfiado por natureza, não sabia o que esperar daquela final do segundo turno, que por já ter vencido o primeiro, se vencesse novamente o Botafogo nem precisaria das finais gerais, de acordo com o regulamento da época. 

Mas Loco Abreu decidiu que era dia de fazer história e lavar a alma alvinegra, mesmo que fosse uma competição de “pouco valor”. Sim, entre aspas, pois todo torcedor quer vencer qualquer título que seu clube dispute, principalmente contra seu maior rival. E assim foi. Em uma partida pegada, cheia de faltas, o Botafogo sofreria um pênalti que acabaria se tornando tão marcante, que decidi incluí-lo nessa lista. 

Na disputa direta contra Bruno, Loco Abreu colocou em prática sua jogada mais famosa, mais esperada, e de cavadinha desempatou o placar, e deixou o Botafogo na vantagem de 2 a 1 contra o adversário. Futuramente Adriano teria a chance de deixar tudo igual novamente, também em um pênalti, que acabou sendo lindamente defendido por Jefferson. E assim, graças ao gol de Loco Abreu, o Botafogo se sagrou Campeão Carioca naquele ano, e tirando da boca o gosto amargo do tabu que há três anos nos perseguia.

4 - A pintura de Petkovic em 2001


Se no item anterior eu pude ser acusada de clubismo, aqui deixo a chance de me redimir. Sim, coloco na minha lista um gol do Flamengo, e não poderia ser outro que não esta pintura de Petkovic, até hoje lembrada em canções, memórias e contos da torcida rubro-negra. 

Novamente, era uma final de campeonato carioca. O Clássico dos Milhões. Flamengo e Vasco se enfrentavam na segunda partida da final do estadual, os maiores rivais do estado disputando o título de melhor do Rio de Janeiro, pelo menos naquele ano. 

Veja bem, eu sou o tipo de torcedora que acredita não haver favoritismo em clássicos. Mas se você me perguntar em quem eu apostaria naquela partida, minhas fichas estariam no Vasco. Um bom elenco, recém campeão brasileiro, e movido por uma rivalidade que Eurico Miranda sintetizava: “Não sei se tenho maior prazer numa relação sexual ou se quando ganhamos do Flamengo”. 

Era o terceiro ano seguido em que Flamengo e Vasco decidiam a final do Carioca, com o Flamengo tendo vencido as duas primeiras. E o Vasco, tendo vencido a primeira partida da final, acreditava mudar aquela história sem mais delongas. Para ser campeão, o Flamengo precisaria vencer por dois gols de diferença. 

E foi o rubro-negro quem abriu o placar com gol de Edilson Capetinha. Juninho Paulista mais a frente marcou e deixou tudo empatado, dificultando ainda mais uma possível reviravolta que desse o título ao Flamengo. O primeiro tempo chegou fim com tudo igual no placar do Maracanã, o Vasco já sentindo as mãos na taça, e o Flamengo disposto a mudar aquele cenário. 

Na segunda etapa, novamente o artilheiro Edilson Capetinha marca, e aumenta a vantagem para o Flamengo. Mas o jogo já estava acabando, e 2 a 1 não era placar suficiente para tirar o título do Vasco. A torcida cruz-maltina já comemorava. 43 minutos do segundo tempo, né? Não há mais como ampliar. Mas não contavam com o talento e a pontaria do maestro que carregava a equipe do Flamengo. 

Após falta sofrida por Edilson, estava nos pés de Petkovic a chance de cobrar e de remotamente converter. Remotamente literalmente, pois a falta nem era tão próxima do gol. Mas estamos falando de Petkovic, não é mesmo? A inexplicável, improvável bola entrou, fazendo o placar exato que o Flamengo precisava para ser campeão pela terceira vez seguida em cima de seu maior rival. Talvez um dos gols de falta mais bonitos que já vi. E por isso ele está aqui.

3 - A quebra de recordes de Marta em 2019


Não é novidade que o futebol feminino enfrentou e enfrenta muitas dificuldades ao longo de sua história, em busca de visibilidade, investimento e um lugar ao sol. E, no Brasil, Marta tem sido uma das maiores responsáveis para que essa luta comece a ter um vislumbre de vitória. 

Não foram poucos os gols importantes da carreira de Marta. Na verdade, cada gol marcado por uma mulher carrega consigo muito mais do que uma bola na rede. 

Em 2019, a Copa do Mundo Feminina entrou para a história por inúmeros motivos. Quebrou recorde de público e audiência, foi transmitida pela primeira vez em TV aberta, e revelou grandes jogadoras para o mundo. 

Uma das partidas transmitidas para o mundo, era o clássico Brasil e Itália. Vencemos, com gol de Marta. Mas aquele gol trouxe mais do que a vitória. Foi o 17º gol da jogadora em copas do mundo, quebrando todos os recordes até então registrados. 

Marta já tinha sua posição de honra, uma grande carreira traçada e um nome de peso. Mas com aquele gol, registrou de vez a sua assinatura na história do futebol, não só do feminino, se tornando a maior artilheira da história das copas. A maior do Brasil. A maior do mundo. 

É a maior artilheira da seleção brasileira em Copas do Mundo, superando Pelé e Ronaldo, e ficando em primeiro lugar também no ranking mundial. 

Marta mostrou ao mundo que o futebol feminino não perde em nada para o masculino. Que pode ser igual (ou nesse caso, ainda melhor) aos nossos ídolos. Ela própria se tornou um destes ídolos. E é exemplo e inspiração para milhares de meninas que querem mostrar seu talento neste meio ainda tão difícil, ainda tão machista, mas que graças a jogadoras como ela, começa a se abrir para nós.

2 - Ananias e o gol que colocou a Chapecoense na história em 2016


Ainda é uma ferida aberta no coração do brasileiro, e acredito que sempre será. Mas a campanha histórica da Chapecoense não poderia ficar de fora desta lista. 

O gol eleito foi em 2016, mas história começou bem antes disso. Em 2013, a Chapecoense voltava à série A do campeonato brasileiro. Durante estes 34 anos, enfrentou adversidades, crises, falta de dinheiro, então sua ascensão foi comemorada por torcedores de muitos clubes, independente de rivalidade. 

E a Chape não parou por aí. Se afirmou como clube grande e competitivo permanecendo na série A conforme os anos iam passando, e conquistou também seu lugar na América Latina, chegando a disputar a Copa Sul-Americana. 

Fazendo uma campanha que ninguém esperava, a Chapecoense chegou à semifinal da competição, encarando o San Lorenzo na Argentina para a primeira partida da etapa. O time do Papa encontrou uma equipe aguerrida, que com gol de Ananias, arrancou um empate que garantiu à Chape a vantagem na segunda disputa, que aconteceria em Chapecó. 

O gol de Ananias acabou sendo decisivo, já que a segunda partida terminou em 0 a 0. E graças a vantagem do gol fora de casa, a Chapecoense avançou para a final da disputa inédita em sua história. 

O que ninguém esperava, é que a realização daquele sonho se tornaria o pior pesadelo da Chapecoense, de seus torcedores, e dos admiradores do futebol pelo Brasil. A caminho da Colômbia para enfrentar o Atlético Nacional, o avião onde estavam os jogadores, a comissão técnica e diretoria da Chapecoense, além de jornalistas e demais passageiros, caiu, matando praticamente todos que representavam o clube. 

O Atlético abriu mão do título. Pediu a Conmebol que o entregasse à Chapecoense. Ato nobre, e que eternizou na história da competição o nome da equipe de Chapecó. 

Uma linda jornada, encerrada de forma tão dura, mas que estará para sempre viva em nossa memória.

1 - Os gols de Ronaldo em 2002


É claro que o primeiro lugar desta lista estava guardado para a Seleção Brasileira. A única no mundo a disputar todas as copas, a camisa mais pesada do globo. E aqui, a última vez em que ela brilhou. 

Eu queria listar todos os gols daquela campanha, mas tenho que ser justa com todos os outros citados aqui. No entanto, cedi à minha vontade de listar mais de um gol, e escolhi os dois de Ronaldo na final contra a Alemanha, os gols responsáveis pela vitória que nos permitiu levantar pela última vez a taça mais importante do mundo. 

Era a primeira vez que as duas seleções se enfrentavam, e a estreia não poderia ser mais emocionante. Em plena final da Copa do Mundo, e com os dois jogadores que mais recebiam destaque naquela copa: o artilheiro indiscutível Ronaldo, e o goleiro alemão Oliver Khan, eleito antes da final como o melhor jogador copa. 

Mas nós tínhamos o craque. Tínhamos peso. Naquela época, a Seleção Brasileira ainda botava medo. E para nós, esperança. Alegria. Orgulho. 

Aqueles gols de Ronaldo o colocaram na lista dos maiores artilheiros da Seleção Brasileira. Mas mais do que isso, fizeram a pátria tão machucada sorrir. Fizeram os brasileiros, pelo menos por um dia, esquecerem seus problemas, sua economia, sua política, sua violência, e gritarem aquele grito único, o grito de campeão que exprime tanto sentimento. Que expurga tantas dores. 

E por isso, estes gols alcançam o primeiro lugar da nossa lista. E deixo como registro do desejo de que algum dia, nossa seleção volte a ser o que era. Nenhuma outra pode ocupar o seu lugar, e ele está lá guardado esperando ela voltar para onde nunca deveria ter saído.

Confira vídeo do Brisa Esportiva

Sissi e a quebra de paradigmas muito além do futebol

Por Diely Espíndola
Foto: Getty Images / Fifa.com

Sissi com a camisa da Seleção Brasileira

Certamente você já ouviu falar de Sissi, a primeira jogadora de futebol feminino do Brasil a se tornar conhecida, e eternizar seu nome na modalidade. Talvez falar de Sissi não seja novidade no meio jornalístico esportivo. Mas eu não quero falar somente da jogadora Sissi. Do legado que ela deixou dentro das quatro linhas. Eu quero convidar você para uma jornada sobre o que Sissi nos deixou fora do campo. 

Estamos em 2020, e o futebol feminino ainda é um terreno inóspito. Ainda nos deparamos com comentários sobre a aparência das jogadoras, sua qualidade técnica, e outras opiniões que sabemos serem pautadas no machismo. Imagine agora como era este cenário na década de 80. Pois é, e foi nele que Sissi surgiu, e contra todas as intempéries que poderia ter enfrentado, fez seu nome e sua carreira. 

Para entendermos o porquê de Sissi ter tido uma importância muito além de somente jogar bola, precisamos entender o contexto em que a jogadora estava inserida. No Brasil, até 1979 a prática do futebol por mulheres era proibida por lei. O texto dizia: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”. Nos dias de hoje pode parecer absurdo, mas naquela época, a repulsa por mulheres praticando futebol era tão grande, que não havia assombro em uma lei dedicada exclusivamente a proibi-las de estar por dentro do esporte que, para homens, era mais do que natural há 100 anos. 

Mas para Sissi, nem as leis, nem a cultura ou o que quer que fosse, a impediram de fazer aquilo que sempre esteve em seu sangue: chutar uma bola. Ou quando não havia bola, muitas vezes tirada de seus pés por seu pai que não aceitava seus gostos, arrancava as cabeças de suas bonecas e fazia delas a sua bola, para não deixar de praticar o futebol que tanto amava. 

Pulamos alguns anos, e chegamos à sua vida adulta. Já jogadora profissional, Sissi sentiu na pele que o fato de as leis terem mudado, não significou que o pensamento coletivo também mudou junto com elas. Ao contrário, enfrentou muitos preconceitos, injustiças e absurdos.


E como não poderia deixar de ser em um contexto de repleto de machismo, desses absurdos alguns dos maiores envolveram sua aparência. Em 1999, a seleção de Sissi conquistou o terceiro lugar na Copa do Mundo. Sissi prometeu que, caso o Brasil conseguisse uma boa colocação, rasparia a cabeça, e assim o fez. A jogadora conta que sofreu preconceito de todos os lados, começando pela própria CBF. As tentativas de escondê-la, de vetar entrevistas, não foram suficientes para que Sissi, careca, não estivesse sob todos os holofotes. Não por conta de seu cabelo (ou a falta dele), mas por ter sido uma das principais jogadoras daquela equipe histórica. 

Mas a posição de destaque de Sissi, seu talento e sua importância para a seleção, não foram suficientes para que ela fosse blindada de situações desagradáveis. A mais marcante delas, Sissi relata como uma das piores experiências de sua vida. Foi forçada em um ensaio fotográfico da seleção, a usar maquiagem, e outras parafernálias visando performar uma feminilidade que a sociedade, os torcedores e a CBF não aceitavam que Sissi não tinha. 

Sissi daquela vez topou, mas nunca mais. Se recusando a usar maquiagem novamente, deixou de receber muitos convites para estar na mídia, simplesmente porque queria o direito de ser ela mesma. 

Para os homens, não bastava ser talentosa. Não bastava jogar bola. Para eles, uma jogadora de futebol deveria ser bonita, feminina, e era isso que queriam ver nas jogadoras daquela época, que já enfrentavam tantas dificuldades. 

Em 2001, o Campeonato Paulista passou a ter uma regra que escancarava o que os homens pensavam a respeito do futebol feminino: “enaltecer a beleza e sensualidade das jogadoras para atrair o público masculino”. E, para aquelas pessoas, beleza e sensualidade não passavam nem perto do cabelo raspado de Sissi, que o manteve não só como forma de rebeldia, mas também para apoiar um menino que enfrentava o câncer, e era vítima de bullying por sua cabeça raspada. 

Na época atuando no São Paulo, Sissi foi proibida de jogar se não se adaptasse às regras, e a resposta da jogadora não poderia ser outra: “dane-se, não preciso disso”.

Confira o vídeo do Brisa Esportiva

E a equipe do São Paulo perdeu uma de suas melhores jogadoras, por machismo, por sexismo, e por um regulamento tão absurdo que nos dias de hoje, nos parece impossível de ter sido verdade. 

Sissi rompeu barreiras, muitas dentro de campo, mas que passavam uma mensagem além das quatro linhas: mulheres, não há lei, não há regra e não há homem que possa ficar entre nós e nossos sonhos. Não há quem possa nos fazer abaixar a cabeça, mesmo que o preço seja alto. E, ah, como Sissi pagou esse preço! Uma jogadora como poucas o Brasil já viu, que comprou uma briga que acabou lhe custando muitas oportunidades, e que por isso hoje não recebe o reconhecimento e a fama que o Brasil lhe deve. Uma briga simplesmente pelo direito de jogar futebol, sem fantasias, sem ter sua imagem explorada por homens que queriam jogadoras como símbolos de sexualidade. Uma briga justa, mas que embora Sissi estivesse do lado certo, foi ela quem sofreu a punição. 

E assim Sissi viveu boa parte de sua carreira: enfrentando o machismo, mas mais do que isso, mostrando à tantas mulheres Brasil afora que por mais que as barreiras de gênero tentem nos limitar, nos moldar e explorar, as donas do nosso destino somos nós. Não importa quanto nos custe.

Accra Sports Stadium – 19 anos do maior desastre do futebol africano

Por Diely Espíndola

Sangue nas escadarias do estádio: tragédia no estádio da capital de Gana

Como muitas coisas que envolvem o continente, a mídia mundial não dá tanta atenção, espaço ou importância para o futebol africano. Mas algumas coisas simplesmente não podem passar em branco, como o terrível episódio acontecido no Accra Sports Stadium, e que deixou 127 mortos. 

No último dia 9 de maio, a maior tragédia do futebol africano completou 19 anos. Uma série de infortúnios, atos impensados e uma confusão generalizada levaram os torcedores presentes no principal estádio de Accra, capital de Gana, a viverem momentos de terror eternizados até hoje na memória do país. 

No dia 9 de maio de 2001, os dois maiores clubes de Gana entrariam em campo, sem ter ideia do rumo que a partida tomaria. Hearts of Oak e Asante Kotoko, formavam também a maior rivalidade do país, o que já deixava os ânimos exaltados para a disputa. Mas o que os torcedores não esperavam, é que quem mais se exaltaria naquele dia, seria a polícia. 


A partida era válida pelo campeonato nacional de Gana, a Ghana Premier Football League. O Asante Kotoko segurou o placar de 1 a 0 até perto do fim da partida. Mas o Hearts of Oak levantou a torcida fazendo dois gols nos minutos finais, virando o placar para 2 a 1. 

Sabemos duas coisas sobre uma virada nos minutos finais: para quem vira, é uma das melhores sensações como torcedor. Já para quem perde, fica o gosto amargo da derrota depois de estar praticamente com as duas mãos na vitória. E nem sempre é fácil lidar com essa frustração, principalmente quando a derrota é contra seu maior rival. 

Não surpreende que a torcida do Kotoko tenha perdido a cabeça. Atiraram objetos, garrafas e cadeiras no campo. Era a forma de externar a indignação por aquela derrota difícil de engolir. Pro rival. De virada. Nos minutos finais. 

Mas não era só o Kotoko que estava naquele estádio. Nem era só o Hearts of Oak. Nem só suas torcidas. Tinha também a polícia. E, bem, ela terminou de forma catastrófica e desproporcional, uma confusão que a torcida do Kotoko sofreu a tentativa de ser responsabilizada. Mas não foi difícil os inocentar. A punição foi muito mais criminosa do que o crime.

Confira o vídeo do Brisa Esportiva

Para conter os torcedores que arremessavam objetos em campo, a polícia disparou balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo, enquanto encurralava a torcida. Com os portões ainda fechados, os torcedores não tinham como escapar. Se amontoaram e tentavam fugir do ataque da polícia, que não parava mesmo vendo que seus alvos não tinham chance de defesa. E o saldo foi desastroso: 127 pessoas mortas, a maioria por esmagamento e sufocamento. 127 vidas, outrora vibrando e torcendo pela alegria que só o futebol proporciona. 127 torcedores pouco lembrados pelo mundo. 

Seis policiais acabaram sendo responsabilizados pela tragédia, mas pouco tempo depois estavam em liberdade. O nome do estádio foi mudado numa tentativa de amenizar a memória daquele lugar que ainda abriga tantas partidas importantes para o país. O agora Ohene Djan Stadium, nunca mais presenciou cena parecida com a daquele 9 de maio de 2001. Ainda bem. Em sua entrada, uma estátua em homenagem aos torcedores foi colocada, com a frase “eu sou guardião do meu irmão”. E na voz dos torcedores ganeses, um coro: “Never Again”. Nunca mais. Assim esperamos.

O Botafogo e La Coruña: o dia em que o Alvinegro deixou de ser preto e branco

Por Diely Espíndola
Foto: Santiago Lyon / AP Photo

O Botafogo, com a camisa do Deportivo La Coruña, encarando a Juventus

O Botafogo tem um passado cheio de glórias, com algumas décadas que se destacam por terem sido marcadas por elencos incríveis e títulos históricos para a torcida do Glorioso. Uma dessas décadas foi a de 90, lembrada principalmente pelo título brasileiro em 1995. Mas a trajetória alvinegra naqueles tempos foi muito além das histórias mais conhecidas pelo público. 

Em 1996, o Botafogo estava sob todos os holofotes do futebol após vencer o Campeonato Brasileiro. Assim sendo, foi convidado para disputar diversas taças amistosas pelo mundo, as quais venceu todas. Após passar por países como Japão e Rússia, o Alvinegro desembarcava na Espanha para disputar a Taça Teresa Herrera. No entanto, o desenrolar da competição não saiu como o esperado, e as circunstâncias da disputa acabaram sendo tão marcantes quanto a conquista dela própria. 

Antes sequer da primeira partida, o Botafogo já se deparava com alguns imprevistos. A cota por partida para o Alvinegro era de R$50 mil valor cinco vezes menor que o valor pago à Juventus, por exemplo. Além disso, o clube ficou hospedado num hotel três estrelas, enquanto todas as outras delegações tiveram direito a se hospedar no hotel mais caro da região onde o torneio foi disputado.

Mas estes contratempos seriam pequenos diante do que ainda estaria por vir para o Botafogo: a impossibilidade de ser campeão carregando a Estrela Solitária no peito. 

Na primeira partida, o Botafogo eliminaria o anfitrião da competição, o La Coruña, vencendo por 2 a 1. O adversário do Glorioso na final seria então a Juventus, que passou pelo Ajax com a volumosa vitória por 6 a 0. Seria o duelo alvinegro na final, e foi justamente essa uma das causas da situação inusitada que chegaria para o Botafogo. 


Antes da partida, a Juventus solicitou ao Botafogo que o número de substituições permitidas no jogo pudesse passar de três para cinco. O Botafogo não aceitou a proposta, o que gerou um desentendimento entre as duas equipes. Enquanto isso, a Juventus tinha um direito garantido por ser o clube mais antigo entre os dois: o de escolher o uniforme a ser usado na partida. A Vecchia Signora escolheu seu uniforme principal, preto e branco. Como por regulamento os times não podem usar uniformes iguais, ou que sejam difíceis de distinguir, a Juventus acabou deixando ao Botafogo a única opção de usar seu uniforme secundário. E aqui começou a confusão. 

Há algumas versões diferentes sobre o porquê de o Botafogo não ter usado o tal uniforme. Alguns dizem que a delegação não levou uniformes além do principal. Outros dizem que o árbitro teria implicado com o fato das mangas serem listradas, e que apesar da camisa preta, seriam parecidas demais com a do oponente. 

Independente do motivo, fato é que o Botafogo não pode entrar em campo com seus uniformes para disputar a grande final. E voltar para casa não era uma opção para o aguerrido Alvinegro carioca. 

A salvação viria pelas mãos do La Coruña. O time galego emprestaria ao Botafogo seu uniforme principal, azul e branco, para que o Glorioso pudesse disputar a final sem mais delongas. E foi assim, que mesmo diante de imprevistos, de dificuldades, o Botafogo soube fazer frente à Juventus e se agigantou em campo.

Vídeo do Brisa Esportiva

A Juventus começou abrindo o placar, mas não demorou até que tomasse o empate. E assim foi até o fim da partida: o time italiano marcava, e o Botafogo igualava o placar. Até que já no fim da partida, com o Botafogo perdendo por 4 a 3, e ninguém mais esperando outro campeão além da Juventus, Túlio sofre pênalti, e ele mesmo cobra e mais uma vez deixa tudo igual entre os alvinegros. 

A partida foi para os pênaltis, e após grande atuação de Wagner, que pegou três pênaltis dos italianos, o Botafogo se sagrou o campeão da Taça Teresa Herrera. A Juventus não marcou sequer um gol na disputa dos pênaltis. 

E assim, sem pompa, sem favoritismo, o Botafogo mais uma vez dava uma aula de superação, garra, e mesmo sem vestir a pesada camisa Gloriosa, levava para casa uma das Taças mais emocionantes de sua história.

Eurico Lara – o goleiro que deu a vida pelo Grêmio

Por Diely Espíndola
Foto: arquivo Grêmio

Lara, o 'craque imortal', histórico goleiro do Grêmio

O futebol brasileiro é repleto de grandes ídolos que se eternizaram sob os escudos dos clubes tupiniquins. Mas alguns deles, mais do que ídolos, acabam se tornando grandes lendas, cheios de mística em torno de sua história e trajetória. E é impossível falar dessas lendas sem citar Eurico Lara. 

Nascido em 24 de janeiro de 1897, Lara começou sua carreira no futebol atuando como ponteiro esquerdo. Mas chamando atenção por seus 1,90m de altura, não tardou para que Lara migrasse à posição de goleiro. E foi assim que o arqueiro se tornaria um dos maiores ídolos da história do Grêmio. 

Eurico Lara já atraía admiração por onde passava por sua personalidade ética e íntegra. Somado à isso, suas defesas muitas vezes milagrosas foram parte fundamental das conquistas do Grêmio durante as 16 temporadas em que Lara vestiu a camisa do Tricolor Gaúcho. E a última dessas conquistas, seria a responsável por todas as lendas que cercam não somente a vida, mas também a morte de Lara. 

Em 1935, o campeonato portoalegrense seria uma das competições mais aguardadas do Rio Grande do Sul. Além da final ser composta por uma das maiores rivalidades do Brasil, o Gre-Nal decisivo também coincidiria com o centenário da Revolução Farroupilha. Todos esses eventos contribuíram para uma atmosfera de misticismo e que se prolonga até hoje no imaginário dos gremistas. 

Na ocasião do Campeonato Farroupilha, como ficaria conhecida a competição, Eurico Lara sofria de tuberculose. A recomendação médica era que Lara não atuasse mais como jogador, para preservar sua saúde e acelerar sua recuperação da doença que àquela época, ainda possuía um alto índice de letalidade. Além da tuberculose, conta-se que Lara também sofria de problemas cardíacos descobertos após um choque no peito sofrido em uma partida contra o Santos.


Mas Eurico Lara ignorou as recomendações médicas, e em 22 de setembro de 1935, naquele Gre-Nal decisivo, vestiria pela última vez a camisa do Grêmio. 

Conta-se a história de que Eurico Lara havia defendido um pênalti na partida, batido por seu próprio irmão que atuaria pelo Internacional. O irmão teria aconselhado Eurico a não defender, porque bateria forte, mas Lara insistiu em defender a meta gremista. De fato, a bola viria com força tamanha que ao atingir o peito do goleiro, o fez sofrer uma parada cardíaca, e agarrado à bola, teria falecido defendendo as cores do Grêmio, campeão daquele ano. 

Mas, bem, a história não foi bem assim. 

Eurico Lara faria naquela final uma de suas maiores atuações pelo Tricolor Gaúcho. Não há registros de que Eurico tivesse um irmão, muito menos que jogasse pelo Internacional. Também não houve pênalti naquela partida. Contudo, o Grêmio foi sim campeão. Acabou vencendo a partida por 2 x 0, e Lara seria substituído ao fim do primeiro tempo. Mas devido a seus problemas de saúde, a saída do jogador não foi do campo para o vestiário, mas para o hospital, de onde só sairia após sua morte. 

Mas novamente, a história não foi essa. 

Lembram quando eu disse que a trajetória de Eurico Lara era repleta de lendas e mitos? Pois é. Mas de forma alguma, estas lendas diminuem seus feitos. Elas existem para florear uma história bonita por si só, de amor ao clube e honra ao escudo que defendia. 

A história real se assemelha muito a segunda versão contada aqui. Eurico realmente atuou magnificamente naquela final. Foi também um dos grandes responsáveis pela vitória do Grêmio sobre seu maior rival. E de fato, sairia de campo no primeiro tempo, de ambulância para o hospital, por conta de seus problemas de saúde. Eurico ficaria ainda alguns dias internado, mas não só saiu do leito como também voltou a campo, desta vez como árbitro de uma partida entre Nacional x Leopoldinense. Em 29 de outubro daquele mesmo ano, aí sim, Eurico entraria em campo pela última vez, novamente como árbitro, apitando a peleja entre Força e Luz x Cruzeiro de Porto Alegre.

O vídeo do Brisa Esportiva sobre Eurico Lara

Mas após aquela partida, Lara sofreria uma recaída em sua saúde, que em 6 de novembro de 1935 culminaria em sua morte. 

Talvez a partida de Lara não tenha sido tão alegórica quanto contam as diversas versões que cercam sua última partida pelo Grêmio. Talvez ele não tenha falecido vestindo as cores do Grêmio. Mas é fato que ter continuado atuando pelo Tricolor, contrariava as recomendações médicas para sua recuperação. Mesmo doente, Lara se comprometeu a defender o Grêmio enquanto sua saúde lhe permitisse, ainda que lhe custasse a vida. 

Lara honrou o Grêmio até seus últimos dias, e o Grêmio soube bem como retribuir. Em seu hino, o nome de Eurico Lara estará eternizado para que todas as gerações de gremistas que ainda estão por vir, conheçam o goleiro que deu a vida pelo Grêmio. 

“Lara, o Craque Imortal
Soube o seu nome elevar
Hoje, com o mesmo ideal
Nós saberemos te honrar”

O Curioso do Futebol

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