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Ações militares da Rússia contra a Ucrânia começam a refletir no futebol

Foto: Reprodução/BBC

Jogadores brasileiros querem sair de Kiev

A Rússia avançou seu exército sobre a Ucrânia na madrugada desta quinta, dia 24. A movimentação, que já causa estremecimento na geopolítica mundial e faz inclusive surgir temor de uma guerra pan-europeia que possa virar um terceiro conflito mundial, obviamente reflete no futebol do velho continente e de certa forma até fora dele, já que times ucranianos possuem jogadores de todas as partes do planeta. Vários foram os reflexos até agora e eles seguem acontecendo. 

O primeiro enorme reflexo se deu diretamente na definição da sede da final da Liga dos Campeões da Europa. Como esperado, a UEFA já anunciou que a decisão não será mais em São Petersburgo, cidade russa que seria o local da final deste ano. Londres surge como favorita para receber a final, mas concorre com outras, como Instambul e Madrid. Uma reunião definirá essa questão, se não hoje, nos próximos dias.

Outro problema que a UEFA já sabe que terá em suas mãos se refere a classificação para a Copa do Mundo de 2022. Polônia e Suécia, que enfrentariam a Rússia na fase decisiva da repescagem já declararam que não vão entrar em território russo. Os jogos ocorrerão em março. Este problema deve também envolver a FIFA, já que ela organiza todos os trâmites relacionados à Copa do Mundo de 2022. 

Já na Alemanha, outra ação esperada que se confirmou neste dia vem do Schalke 04. O tradicional clube de Gelsenkirchen tem patrocínio da Gazprom, empresa russa que produz gás para obtenção de calor e energia, mas já anunciou que não usará mais a marca da empresa em sua camisa enquanto ocorrer o conflito entre Rússia e Ucrânia. A declaração foi divulgada nas redes sociais do clube.

Por fim, todos os jogadores brasileiros de Shakhtar Donnest e Dinamo de Kiev pediram ajuda ao governo de Jair Bolsonaro para que possam retornar ao Brasil o mais breve possível. O apelo dos jogadores, que estão juntos em um hotel ucraniano, foi divulgado em vídeo em várias redes de televisão. O Itamaraty ainda não declarou oficialmente como será feito este retorno. O campeonato local foi paralisado.


Outros reflexos, como por exemplo especulações sobre a Inglaterra tomar o Chelsea do russo Romam Abrahmovic e outras situações ainda poderão ocorrer neste dia. Os reflexos ainda estarão ocorrendo pelos próximos dias e, é claro, uma guerra continental mudaria totalmente o cenário do futebol mundial e não só europeu. 

Guerra do Futebol - Quando o esporte gerou um conflito armado

Por Lucas Paes
Foto: Arquivo

Em 1969, o futebol gerou um conflito entre Honduras e El Salvador

O futebol é um esporte que muitas vezes salva. O jogo bonito já parou guerras, já gerou trégua de natal no maior conflito da história da humanidade e sempre será um fio de esperança para uma criança em situação ruim, às vezes salvando vidas de famílias e comunidades inteiras. Mas, o esporte também pode ser cruel, seja nas brigas entre torcedores, nas tristes histórias de corrupção ou mesmo gerando guerras. Em 14 de julho de 1969, alguns dias após jogos entre Honduras e El Salvador, se iniciou um conflito entre os países conhecido como a "Guerra do Futebol".

Obviamente, as motivações da guerra não foram necessariamente os resultados dos duelos entre as duas seleções, eles foram apenas um pequeno catalisador. Os dois países viviam tensões econômicas e sociais já há algum tempo. No início da década de 1960, a população salvadorenha aumentou vertiginosamente, deixando o país sem muitas terras para trabalhadores camponeses. As manifestações dessa parcela da população eram frequentemente reprimidas com violência, o que gerou uma fuga em massa de camponeses para Honduras. O que foi bem visto por empresários dos EUA, donos de terras para produção de banana. A população de ambos os lados não tinha grande rivalidade, com ambos os lados próximos em costumes e na língua. Porém, as relações diplomáticas eram péssimas.

Tudo começa a piorar quando Honduras tem um golpe militar em meio à uma crise politica e econômica. Primeiro, em 1962, os hondurenhos aprovam uma lei que só permite a nativos possuirem terras produtivas. Quando o Coronal Osvaldo Arellano assumiu o poder, em um golpe de estado no ano de 1963, aumentam a crise econômica e a corrupção e o governo usa os salvadorenhos como bode expiatório, passando a assassinar e perseguir tal população através de braços armados, aumentando a temperatura na panela de pressão que se formava.

As tensões eclodiram em três partidas sequenciais que definiriam um classificado para a final das eliminatórias da CONCACAF para a Copa do Mundo de 1970. No dia 8 de junho, em Tegucigalpa, vitória hondurenha por 1 a 0. A torcida local não deixou os jogadores visitantes dormirem, se reunindo em frente ao hotel e jogando rojões, pedras, além de muita cantoria, rojões entre outras coisas. O cansaço da Seleção de El Salvador foi nítido e o gol veio só no finalzinho. No outro lado da fronteira, vendo o jogo pela TV e decepcionada, a estudante Amelia Bolaños, de apenas 18 anos, se matou com o revólver de seu pai.

Um dos jogos entre as duas equipes

Na segunda partida, no dia 15, em San Salvador, vitória dos salvadorenhos por 3 a 0. Nesse dia, houve um ódio absurdo aos visitantes, sejam torcedores ou jogadores, com inclusive um ataque ao hotel onde estava a delegação salvadorenha de forma muito mais violenta. Carros de torcedores visitantes foram queimados e um torcedor morto. A tensão era imensa e a torcida além de toda a vaia em cima dos salvadorenhos, fez questão de derrubar a bandeira do país, num jogo que tinha um clima de ódio muito maior que qualquer clássico do futebol

Na partida decisiva e ponto de ebulição do conflito, em 27 de junho, na Cidade do México, outra vitória para El Salvador, por 3 a 2, que definiu a classificação salvadorenha. Nesse dia, a futura sede do mundial fez um enorme esquema de segurança para evitar problemas nesse jogo, que acabou sendo mais pacífico, apesar da emoção do gol decisivo na prorrogação. Porém, os problemas na fronteira entre El Salvador e Honduras já eram não solucionáveis.

Então chegamos ao pós duelos pela classificação ao mundial de 1970. Em 14 de julho, menos de um mês depois do duelo decisivo na capital mexicana, com o rompimento de relações diplomáticas, a guerra acaba declarada. Um resultado claro dos problemas quase diários ocorrido na fronteira entre os dois países. O conflito envolve civis e militares e consegue ser extremamente curto, porém extremamente sangrento. Em quatro dias, tempo necessário para a Organização dos Estados Americanos negociar um cessar-fogo, foram 6 mil mortes, entre civis e militares, outros milhares de feridos e um prejuízo inimaginável em questão socioeconômica. Serviu de consolo para El Salvador a classificação para a Copa do Mundo, diante do Haiti.


Apesar do cessar-fogo quatro dia depois, um tratado de paz entre os dois países só foi assinado em 1980. Os resultados econômicos e sociais do conflito demoraram anos a serem melhorados e os resultados dessa guerra ainda podem ser vistos em ambos os lados. Fica na história o registro de uma vez onde o futebol foi catalisador de um conflito. Em 2019, 50 anos depois da guerra, o confronto entre El Salvador e Honduras na Copa Ouro foi até tranquilo. A surpreendente goleada hondurenha eliminou os rivais da competição, mas nas arquibancadas os torcedores conviviam em paz. Já as relações políticas entre os países seguem estremecidas, ainda que sequer serem próximas das que geraram um dia uma guerra.

O Curioso do Futebol

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