De Nilton Santos a Arnold e Robertson – A nova evolução das laterais

Por Lucas Paes 
Foto: Divulgação/Liverpool FC 

Esses rapazes sorridentes são um pesadelo para defesas na Europa

As laterais são provavelmente uma das posições que mais tem evoluído no futebol mundial com o avanço dos conceitos táticos e físicos. De relegadas a defesa, com alguma função na saída de bola nos primórdios, as alas viraram chave para o funcionamento de algumas equipes. Hoje, no que é provavelmente o time mais visado do planeta, o Liverpool de Klopp, a posição vive o que pode ser a sua mais nova evolução, quando viraram o motor da equipe. 

A maioria das mudanças na lateral foram alavancadas, ou pelo menos simbolizadas, em jogadores brasileiros. Um dos maiores símbolos de ofensividade para um lateral vem do golaço de Nilton Santos contra a Áustria, na Copa do Mundo de 1958. Era o nascer de uma época onde os laterais começariam a ser um pouco mais utilizados ofensivamente, desde Fachetti iniciando a construção de jogadas na Inter de Helenio Herrera, à Carlos Alberto Torres revolucionando a posição no Brasil e marcando um dos gols mais marcantes da história do futebol na Copa do Mundo de 1970. Por fim, chegamos aos anos 1990, com Cafu e Roberto Carlos, uma belíssima dupla. Cada vez mais os laterais eram e são utilizados ofensivamente, até que chegamos a loucura proporcionada por Robertson e Arnold no Liverpool atual. 

Não é uma evolução que surge do nada no panorama tático atual. Diversas equipes europeias já tiveram um jogo muito apoiado com as laterais. O Barça de Guardiola tinha em Daniel Alves um de seus jogadores mais importantes e o Real Madrid do tricampeonato europeu recente usava e abusava dos avanços de Marcelo. No Brasil, temos desde André Santos sendo crucial na criação ofensiva do Corinthians de 2009 até o Flamengo de Jesus usando Filipe Luis para a criação de espaços. Mas, a dupla dos Reds parece representar uma evolução, que só pode acontecer devido ao sistema tático do time de Klopp. 

Considerado por muitos o melhor time do planeta atualmente, a máquina incansável do alemão usa e abusa da pressão no campo de seus adversários para construir seu jogo. Os gigantes de Merseyside abafam o adversário dentro de seu campo e reduzem os espaços, para depois ou construírem rapidamente um lance letal ou então manterem a posse da bola e rodarem a espreita do momento do bote, como um veneno que enfraquece aos poucos seu algoz. Nos dois casos, a participação de Trent Alexander Arnold e Andy Robertson é essencial, seja nas inversões de jogo que colocam os adversários contra as cordas, abrindo espaço para as mortais infiltrações de Mané e Salah, ou claro, nos precisos passes e cruzamentos para os gols marcados pelos jogadores vermelhos. 

Os números, por mais que as vezes sejam vazios sem um contexto, não mentem. A dupla é, pelo segundo ano seguido, líder de assistências do time na Premier League. Arnold bateu seu próprio recorde pessoal com 13 passes para gol na temporada, enquanto Robertson serviu 12 vezes os companheiros. No biênio 2019/2020, quando os Reds terminaram campeões ingleses, a dupla só ficou atrás de De Bruyne no ranking de assistências da temporada. Além disso, Arnold começa a se tornar cada vez mais mortal nas cobranças diretas de falta, mas isso não é exatamente inédito para laterais. Como atestou o portal Trivela em um dos textos sobre o campeão inglês, os laterais “são a turbina do Liverpool a jato.”


O que torna a dupla do time de Anfield Road tão mortal? O sistema de jogo de Klopp. Quando o Liverpool avança com a bola, Fabinho recua e fica próximo a Van DJik e Gomez na linha defensiva, enquanto tanto Arnold quanto Robertson avançam, muitas vezes ao mesmo tempo. Quando a bola está com o campeão inglês, os laterais avançam e dão amplitude, além de abrir o leque de opções de passe para Salah, Mané e Firmino, facilitando inclusive as aproximações do senegalês e do egípcio, particularidade tão mortal da equipe. Por vezes, os ataques terminam com um dos dois despejando a redonda na área ou então chegam a linha de fundo buscando a opção atrás. As vezes, os ataques são finalizados pela própria dupla, com Robertson tendo uma tendência maior as chegadas com finalização, seja em boas cabeçadas ou em chutes venenosos. 

Outro fator que torna os cruzamentos da dupla tão mortais é o estilo como eles são feitos. Tanto o camisa 66 quanto o capitão da Seleção Escocesa buscam jogadas onde a bola faz a curva por trás dos defensores, entrando a caráter para o ataque do jogador do Liverpool, em posição onde geralmente a finalização já tende a deixar o goleiro e a defesa em apuros, além do sofrimento para cortar a bola nesses passes aéreos. Obviamente, as bolas paradas também viram um arsenal nesses casos. 

A se levar em última análise, a impressão que a mortal dupla de laterais de Anfield deixa é que agora a posição tende a cada vez mais ser usada para impor intensidade e opções no jogo ofensivo. A se seguir pelo estudo dessas características, espera-se que se torne cada vez mais comum a exigência de que os alas saibam cruzar e fazer jogadas, para aumentar o leque de opções das equipes. Além do fim do velho jargão de que se um lateral sobe, o outro fica. De relegada e praticamente ignorada, a função pode se tornar essencial na construção de um escrete vencedor. Ficamos ansiosamente no aguardo dos próximos capítulos da fascinante evolução do esporte bretão.
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