A era de ouro do Hercílio Luz, o primeiro clube catarinense em competições nacionais

Por Tiago Cardoso
Foto: arquivo

O time bi-campeão catarinense

No ano de 1957 a corrida espacial entre as superpotências Estados Unidos e União Soviética estava a pleno vapor, o que culminou na ida da cadelinha Laika, uma vira-latas que perambulava pelas ruas de Moscou, ao espaço, tornando-se o primeiro ser vivo a cruzar a órbita da Terra. Laika tripulou o satélite Sputnik 2, mas infelizmente não resistiu e morreu horas depois do lançamento. Na Cidade das Estrelas, área do programa espacial russo em Moscou, uma placa e uma estátua homenageiam a heroína peluda e de quatro patas. O Rei do Futebol, Pelé, estreia pela Seleção Brasileira aos 16 anos de idade, numa partida pela Copa Rocca, no Maracanã, contra a Argentina. Pelé saiu do banco para empatar o jogo, que seria vencido pela Argentina pelo placar de 2x1, sob os olhares atentos de 80 mil pessoas. Na volta, três dias depois, no Pacaembu, desta vez titular, Pelé abre o placar no jogo que dá a vitória de 2x0 e, por conseguinte, o título do torneio ao escrete canarinho, o primeiro do Rei do Futebol com a camisa da Seleção Brasileira. Em Roma, potências europeias assinam um tratado que dá início a Comunidade Econômica Europeia, o embrião da União Europeia. Israel se retira da Península do Sinai, dando fim ao impasse político com o Egito iniciado no ano anterior. 

No ano de 1958, o Brasil conquistava pela primeira vez a Copa do Mundo, na Suécia, e Pelé era coroado o Rei do Futebol aos dezessete anos, enquanto Garrincha deixava mais um “João”, como chamava todos seus adversários, pelo chão, disciplinadamente, como certa vez dissera Nilton Santos, lateral esquerdo daquela conquista e para muitos o maior da posição em todos os tempos, que lhe conferiu a alcunha de Enciclopédia do Futebol. No Magreb, como é conhecido o Norte da África, é proclamado o Governo Provisório da República Argelina, a qual estava mergulhada desde 1954 numa guerra de independência contra a metrópole francesa, numa década em que iniciara-se um paulatino processo de descolonização do continente. Um novo movimento cultural brasileiro surgia, a Bossa Nova, com a gravação da mítica “chega de saudade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, por João Gilberto, expoente do gênero.


Em 1959, o distrito federal ainda era o Rio de Janeiro, embora Brasília já estivesse em fase de conclusão para ser inaugurada no ano seguinte, ao passo que o presidente JK seguia sua política de “planos de metas” que prometia fazer o Brasil crescer 50 anos em 5, num país onde a maioria da população ainda era rural. Numa ilha a 150 quilômetros dos Estados Unidos, dois jovens, Fidel e Chê Guevara, consolidam a Revolução Cubana, no outrora quintal dos Estados Unidos. Em Clear Lake, Iowa, EUA, caía o avião que levava os roqueiros The Big Popper, Buddy Holly e Ritchie Valens, silenciando para sempre o jovem cantor que ficou eternizado com a música “la bamba”. 

Enquanto isto, no sul de Santa Catarina, a 133 quilômetros da capital Florianópolis, na cidade de Tubarão, polo cerâmico importante do estado, o Hercílio Luz, que hoje milita na segunda divisão catarinense, vivia seus anos dourados. O clube, que homenageia em seu nome um ex-governador do estado de Santa Catarina, conquista o bicampeonato estadual em 1957 e 1958, ainda hoje suas únicas conquistas. A conquista de 1958, possibilitou que o clube participasse da primeira edição da Taça Brasil, criada em 1959 para apontar um representante brasileiro na Libertadores da América, que passaria a ser disputada a partir de 1960. 

A participação do Hercílio Luz na Taça Brasil é a primeira participação de um clube catarinense numa competição nacional, mas para isto o clube precisou trilhar um árduo percurso. 

O Hercílio Luz voltava ao campeonato estadual após um hiato de quatro anos de ausência, uma vez que não participava da competição desde 1953, onde caiu nas quartas de final. Em 1957, o campeonato estadual era regionalizado na primeira fase, razão pela qual o Hercílio Luz fez parte do grupo Zona Sul, ou 3ª Zona, junto ao Ferroviário, também da cidade de Tubarão, o Henrique Lage, da cidade de Lauro Muller, e o Comerciário, atual Criciúma. O Hercílio Luz foi o campeão do grupo, o que, por sua vez, garantiu-lhe uma vaga nas semifinais, onde se juntou ao Sadia, da cidade de Concórdia, campeão da Zona Leste, ou 1ª Zona, ao Carlos Renaux, da cidade de Brusque, campeão da Zona Leste, ou 2ª Zona, e ao Ypiranga, de São Francisco do Sul, campeão da Zona Norte, ou 4ª Zona. Coube ao Hercílio Luz enfrentar o Ypiranga, contra o qual não teve dificuldades para se classificar à final, vencendo fora de casa pelo placar de 5x2 e em casa, na cidade de Tubarão, pelo placar de 3x1. Na grande final, o adversário foi o Carlos Renaux, que não tomou conhecimento do Sadia, vencendo os dois jogos por goleadas, 5x0 como visitante e 6x1 como anfitrião. Diante de um adversário mais duro, o Hercílio perdeu o primeiro duelo da decisão pelo placar de 3x1, disputado na cidade de Brusque. Entretanto, na revanche, em Tubarão, o Hercílio Luz venceu o duelo pelo placar de 4x2. Deste modo, um terceiro jogo foi necessário para definir o campeão. Na cidade de Florianópolis, no dia 08 de junho de 1957, veio a consagração, com uma vitória pelo placar de 2x0. O Hercílio Luz entrou em campo naquele dia, na capital catarinense, no sistema 2-3-5, com Bateria; Rato e Pinto; Mário, Adir e Ernani; Giovani, Betinho, Waldir, Ernesto e De Lucas. O Hercílio Luz terminou a partida com apenas sete jogadores, pois o árbitro José Silva expulsou os jogadores Waldir, Betinho, De Lucas e Pinto. Do Carlos Renaux, foi expulso o atleta Júlio Camargo. Na sua nona participação na história do estadual, disputado desde 1924, o Hercílio Luz colocava a cidade de Tubarão no mapa do futebol barriga verde, e começava a escrever as páginas mais belas de sua centenária história tornando-se o primeiro clube do sul do estado a se sagrar campeão estadual.


Em 1958, o formato do campeonato foi mudado, desta vez dezesseis times se enfrentavam em jogos de ida e volta, eliminatórios. Para chegar as semifinais, o Hercílio Luz bateu o Inter de Lages nas oitavas de final e o Barriga Verde de Laguna nas quartas de final. Nas semifinais, o Hercílio Luz não teve dificuldades para eliminar o Marcílio Dias. Com uma vitória de 3x1 na cidade de Tubarão e uma nova vitória, desta vez pelo placar de 2x1, na cidade de Itajaí, o Leão do Sul como é conhecido, habilitava-se a disputar a final, que mais uma vez seria contra o Carlos Renaux, que havia despachado o Comerciário, atual Criciúma, na outra semifinal. No primeiro jogo, em Brusque, o Hercílio Luz foi goleado pelo placar de 4x1. Na volta, em Tubarão, o Hercílio Luz precisava evitar nova vitória do Carlos Renaux e forçar um terceiro jogo. O confronto foi eletrizante, terminando em incríveis 5x5. Deste modo, o Hercílio Luz foi salvo pelo regulamento, que, naquela temporada, previa que o campeão precisaria marcar quatro pontos nos dois jogos. Numa época em que a vitória valia dois pontos, o Carlos Renaux não alcançou o número de pontos necessários para se sagrar campeão, o que novamente forçou a realização de um terceiro jogo em campo neutro, na capital. Assim, o Hercílio Luz novamente percorreu os 133 quilômetros que separam a cidade de Tubarão da capital para disputar o título de melhor time de futebol do estado, no dia 29 de março de 1958, e vencer o Carlos Renaux pelo placar de 3x1. O Hercílio Luz sagrava-se bicampeão estadual, pois havia feito melhor campanha ao longo do campeonato, por isso, mesmo marcando os mesmos três pontos que seu adversário nos duelos finais, foi coroado novamente o rei do estado. 

Assim, o Hercílio Luz garantia sua vaga na Taça Brasil de 1959, juntando-se ao Grêmio, campeão gaúcho, e ao Atlético, campeão paranaense, formando o Grupo Sul. O Hercílio Luz enfrentaria o Atlético Paranaense. O vencedor do duelo enfrentaria o Grêmio na fase seguinte, para posteriormente alcançarem as quartas de final. No primeiro jogo, disputado no dia 23 agosto de 1959, no lendário estádio Aníbal Costa, o Hercílio Luz saiu atrás do placar, tomando gol aos 9 e 23 minutos do primeiro tempo. O time até tentou reagir, descontando aos 29 minutos do segundo tempo, com gol de Luizinho, mas não teve forças para empatar. Agora o Hercílio Luz tinha a indigesta missão de vencer o Atlético Paranaense em Curitiba, mas novamente foi derrotado, desta vez pelo placar mínimo. Encerrava-se, no dia 30 de agosto de 1959, a era gloriosa do Hercílio Luz, que no campeonato catarinense de 1959, concluído somente em 1960, ainda conseguiria vencer o campeonato da Zona do Sul do estado, mas não conseguiria chegar entre os quatro primeiros no octogonal final que decidiu o torneio daquele ano. Em 1960, não conseguiria chegar às semifinais, sendo eliminado pelo extinto Metropol, o qual seria o campeão, e que se tornaria uma potência do futebol catarinense na década vindoura. Em 1961, o Hercílio Luz sequer se inscreve para a disputa do estadual. Assim mesmo, o time se mantém entre os principais do estado na década de 1960 e início dos anos 1970, disputando os campeonatos de 1962 e todos entre 1964 e 1973. Entretanto, devido a uma forte enchente, que destruiu a cidade de Tubarão no ano de 1974, o clube teve que se licenciar, disputando ainda o campeonato de 1975, voltando apenas em 1984, ocasião na qual disputou o estadual de forma ininterrupta até o ano de 1991, quando foi rebaixado. Em 1993 conseguiu novamente o acesso à primeira divisão, mas se licenciou e só voltou à primeira divisão em 1995. Além de não disputar a primeira divisão em 1994, após conseguir o acesso em 1993, cedeu seu estádio ao rival citadino, Tubarão, em forma de pagamento de dívidas que assolavam o clube. Após disputar o campeonato estadual de 1995, o clube entrou em crise profunda e se licenciou, voltando ao profissionalismo somente em 2008. Em 2017, ao conquistar o vice-campeonato da segunda divisão, garantiu seu retorno à elite do futebol do estado, onde ficou até 2018, quando foi novamente rebaixado. 

Quando o Hercílio Luz sagrou-se bicampeão catarinense em 1959, somente Avaí, com 9 títulos, Figueirense, com 6 títulos, América de Joinville, com 4 títulos, e o Caxias de Joinville, com 3 títulos, tinham mais conquistas que o Leão do Sul. América e Caxias se fundiram em 1976, criando, assim, o Joinville, que já conquistaria seu primeiro título naquele ano. Atualmente, o Joinville é o terceiro maior campeão estadual com 12 títulos. As outras duas potências estaduais, Criciúma e Chapecoense, só foram conquistar seus primeiros títulos em 1968 e 1977, respectivamente. Ou seja, em 1959, o Hercílio Luz só tinha menos conquistas que os dois gigantes da capital, Avaí e Figueirense, entre os clubes que seguiram sua história, pois América e Caxias não existem mais desde 1976. 

Mas o destino mudou sua rota e o Leão do Sul se apequenou, foi rebaixado, fechou, retornou. Enquanto o Criciúma, que só foi ser campeão em 1968, ainda com o nome de Comerciário, tornou-se o único catarinense campeão da Copa do Brasil em 1991, e a Chapecoense, que só foi ser campeã em 1977, chegou a uma final de Copa Sulamericana em 2016, a qual não aconteceu em razão do fatídico acidente aéreo que vitimou setenta e uma pessoas, entre elas quase todos os atletas do elenco, em Cerro Gordo, na Colômbia. 

O que aconteceria com o clube se a famigerada enchente de 1974 não destruísse a cidade de Tubarão, o patrimônio do clube e por conseguinte suas finanças, obrigando-o a se licenciar do futebol não sabemos, até porque já completava-se quinze anos da última glória, mas seus torcedores ainda içam suas bandeiras alvirrubras em suas casas na esperança de um retorno aos grandes do futebol barriga verde. 

Na segunda divisão, o Hercílio Luz, clube que revelou Zenon, nascido na cidade, ídolo do Guarani, onde foi campeão brasileiro em 1978, e do Corinthians, com passagens pela Seleção Brasileira, busca retomar suas glórias pelo estado. O lendário Aníbal Costa, inaugurado em 1941, onde foi disputada a primeira partida de uma competição nacional em solo barriga verde, foi vendido a um grupo de investidores, entretanto uma nova arena, moderna e funcional, está sendo construída com previsão de inauguração no ano de 2022. Até lá, o Leão do Sul vai se despedindo do estádio onde viveu suas maiores glórias, uma vez que poderá usá-lo até dezembro de 2021. 

A notícia boa é que o estadual de 2021 passará a contar com doze times, dois times a mais que no campeonato deste ano, portanto três clubes subirão à divisão de elite do estado no ano seguinte, facilitando, em tese, o retorno do clube ao lugar de onde seus torcedores, os leoninos, acreditam que nunca deveria ter saído.
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