quinta-feira, 9 de abril de 2020

A história da numeração de camisas no futebol

Por Lucas Paes

A camisa 10 virou símbolo de realeza depois de Pelé

O número da camisa usada por um atleta no futebol é hoje uma marca que acaba tão consagrada como seu próprio nome. A começar pelo Rei Pelé e a camisa 10, temos várias histórias, com casos de camisas aposentadas devido a ligação com um jogador e até de um número reservado a uma família (o 3 no Milan, reservado a integrantes da família Maldini.). Porém, nem sempre houveram números nas camisas de futebol, algo que foi introduzido na regra já na metade do século passado.

Há certas dúvidas sobre a primeira história de um time usando números no futebol. A IFFHS traz como primeiro registro um jogo em 1911, quando dois times australianos, o Sydney Leichdhart e o HMS Powerful utilizaram camisas numeradas. Já na década de 1910, surge a primeira regulamentação de obrigatoriedade de numeração no futebol, vindo do estado de New South Wales, na Austrália. Há porém registros fotográficos de jogos entre times australianos usando números já em 1903. Em 1897, um jogo de Rúgbi entre Queensland a Seleção da Nova Zelândia já teve números usados em camisas, sendo este provavelmente o primeiro registro de numeração de camisas no esporte em geral.

Na América do Sul, o primeiro registro oficial de jogos com camisas numeradas veio de uma excursão de um time escocês chamado Third Lanark quando enfrentou um combinado chamado Zona Norte. Ambos os times usaram números de 1 até 11, em 1924 Depois, nos Estados Unidos, o Fall River United usou números em uma partida da Challenge Cup, hoje US Open Cup, contra o St Louis Vesper Buck. O primeiro país europeu a usar os números em uma partida oficial foi, obviamente, a Inglaterra, em um jogo da FA Cup entre Sheffield Wednesday e Arsenal e também na mesma competição um jogo entre Chelsea e o Swansea, ambos ocorridos em 1928. Apesar disso, como já dito, o Lanark havia usado em uma excursão anteriormente.

Aos poucos, os números foram adotados ao redor do planeta e já na década de 1940 muitas ligas já tinham como obrigatório o uso de numeração na camisa. Em 1950, no Brasil, pela primeira vez a Copa do Mundo obrigou o uso de numeração nas camisas. Aqui no Brasil, a numeração havia virado padrão em 1947. Aos poucos foi se tornando obrigatório, ainda que apenas muitos anos depois viesse uma lei da FIFA obrigando a numeração em jogos, o que ocorreu apenas em, acredite se quiser, 1994.

Cruyff tornou o número 14 uma marca de sua história  
(Foto: AFP)

Inicialmente, os números de jogadores eram escolhidos por posição em campo. Com o número 1 indo aos goleiros, 2 e 6 para os laterais, 4 e 3 para zagueiros, 5, 8 e 10 para os meio campistas, 7, 9 e 11 para jogadores de ataque (considerando é claro, um time no 4-3-3.) Haviam variações, mas alguns padrões eram quase internacionais. Esse tipo de organização só passou a cair em desuso com adoção da numeração fixa, que tornou comum ver jogadores de linha com números acima de 20.

Apenas nos anos 1990, diversas ligas pelo mundo começaram a adotar o padrão de números fixos para um jogador na temporada. Em Copas do Mundo, já houve diversos casos de numerações por ordem alfabética. No Brasil, por exemplo, em 1958, no primeiro título mundial, o goleiro Gylmar usava a número 3. A Argentina também já teve jogadores de linha usando a número 1, que geralmente é de goleiros. A Copa do Mundo de 1994 foi a primeira a exigir números fixos.

A numeração de camisa criou "místicas" no futebol e, é claro, a maior delas vem do número 10. Graças a nomes como Pelé e Maradona, a camisa 10 cresceu na mística como o número do craque do time, substituindo, por assim dizer, o número 5, que geralmente era dos meio-campistas que eram o cérebro do time. Desde então, diversos craques do futebol mundial usam a camisa 10, que virou praticamente uma marca registrada de qualidade. Em alguns times o número não é dado "de graça", já que um jogador tem de merecer vestir a camisa 10, ou seja, ninguém pode escolher usar a 10. Esse tipo de situação tem sido morto pelas limitações de numeração fixa em algumas competições internacionais.


O jogo evoluiu de tal forma que hoje associamos um jogador que gostamos, mesmo um ídolo, a um número de camisa. Alguns jogadores fizeram de seus números uma marca praticamente própria, sendo o número 14 de Cruyjff um dos exemplos mais notáveis. Hoje, por exemplo, temos jogadores que optam por números diferentes, como o goleiro italiano Donnaruma, que usa a número 99, em homenagem ao ano de seu nascimento. Na Inglaterra, há jogadores que usam o número que foi designado no início de carreira por toda a sua trajetória, como Terry (26) e o lateral Alexander Arnold (66). O fato é que muita história aconteceu para que seu time tenha hoje o craque da camisa de número X (geralmente 10). Muita história que mudou o futebol para melhor.
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