A tragédia de Heysel e os anos perdidos pelo Liverpool e pelos ingleses

Por Lucas Paes
Foto: Getty Images


A tragédia de Heysel é uma mancha irreparável nas histórias de Liverpool e Juve

O futebol inglês hoje é um dos mais badalados do mundo. A Premier League é celeiro de times com muito dinheiro, com ideias modernas e em sua maiora clubes que contam hoje com fãs em todo o mundo. Nem sempre, porém, o futebol inglês foi essa maravilha que é. Até poucas décadas atrás, a Inglaterra vivia a sombra do hooliganismo e seus fãs causavam terror no continente inteiro. A maior demonstração desse terror ocorreu em 1985, em Bruxelas, quando torcedores do Liverpool causaram, devido a sua violência, 39 mortes. Aquele episódio, que ficou conhecido como a "Tragédia de Heysel", causaria, para o futebol inglês, anos perdidos e uma imagem destroçada. Para os italianos, uma ferida que nunca cicatrizou. 

Não haverá aqui neste texto grande extensão sobre o que foi a Tragédia de Heysel. Em resumo, uma combinação de erros de planejamento, falta de estrutura e claro, acima de tudo, selvageria dos hooligans ingleses e italianos causou 39 mortes inocentes, quando diversas pessoas tentavam fugir da briga generalizada e acabaram encontrando um muro no caminho, um muro que desabou sobre 39 vidas e incontáveis feridos. O torcedor mais jovem a morrer tinha apenas 11 anos. A partida, realizada num estádio condenado e precário, com erros crassos de segurança e envolvendo duas das torcidas mais violentas do mundo na época era a crônica de uma tragédia anunciada. Pouco importa nisto tudo, mas a Juventus venceu o jogo por 1 a 0 e se sagrou campeã européia. Porém, entendemos o que, dentro de campo, a tragédia causou aos ingleses.

Obviamente, a situação causou uma sensação de raiva generalizada em diversos níveis de envolvimento no futebol. O Liverpool se viu em desgraça total. Os Reds, antes mesmo de qualquer ação de punição da UEFA, se auto-impuseram um banimento de competições européias, que acabou sendo de seis anos para o time de Merseyside e de cinco anos para demais clubes ingleses. Heysel foi o caso mais grave de uma série de problemas envolvendo torcedores do país pela Europa. Desde os anos 1970, com torcedores do Tottenham causando problemas na Holanda até brigas envolvendo torcedores da própria seleção inglesa. Heysel foi a gota d'água. 

Dentro de campo, é claro, poucos times poderiam ter tanto prejuizo quanto o próprio Liverpool. Os Reds viviam nos anos 1980 seu auge e eram o time mais temido da Europa (notadamente, dentro de campo e nas arquibancadas.). Deixando de participar da Liga dos Campeões até 1991, o Liverpool deixou de jogar três edições em que teria, teoricamente, time para buscar mais uma conquista européia. Não há ainda um entendimento preciso sobre o impacto que estes anos tiveram sobre o time vermelho da cidade dos Beatles, que ainda passariam por outra tragédia, desta vez como as vítimas, em Hillsbrough. 

No que se refere a questão da imagem do clube, esta foi irreversivelmente afetada por Heysel. E, verdade seja dita, o clube de Anfield pouco fez para limpar a imagem naquele periodo. Segundo o Anfield Wrap, um dos maiores fansites dos Reds, o anuário dado aos torcedores para a temporada 1985/1986 fazia pouquissimas menções a Heysel, citando que a torcida deveria deixar a situação para trás e trazer de volta a atmosfera do estádio, ressucitando uma imagem boa para o clube. Não haviam referências diretas ao que aconteceu. Demoraram muitos anos para que a própria cidade de Liverpool passasse a reconhecer a tragédia, algo que aconteceu só para meados de 2000. Hoje há um memorial sobre Heysel em Anfield, mas também foram muitos anos para que houvesse reconhecimento do ocorrido e até pedidos de desculpas do gigante inglês. 

É claro que a situação pioraria ainda mais para os Reds com Hillsbrough, onde os torcedores foram durante praticamente três décadas culpados injustamente pela tragédia, que levou 96 vidas e mudou para sempre a segurança nos estádios ingleses, de maneira até exagerada. Claro, muito disso incentivado pelo "Relatório Taylor", que culpou os torcedores vermelhos. Atualmente, a luz da verdade sobre Hillsbrough e a luz da verdade sobre Heysel, é de se questionar porque em três anos não se fez nada para mudar a segurança nos estádios e para os torcedores, principalmente sabendo-se que, em ambos os casos, num deles mais e num deles menos, a estrutura precária foi peça chave do desastre.

Dentro de campo, porém, o Liverpool não foi o único afetado. Aliás, o rival citadino dos Reds, o Everton, é um dos times onde a punição acabou significando mais perdas. Os Toffees foram campeões ingleses na temporada 1984/1985 com uma campanha espetacular, terminando 13 pontos na frente do próprio Liverpool. A equipe, comandada por Howard Kendall é talvez a melhor da história do clube de Goodison Park e poderia perfeitamente buscar um título da Liga dos Campeões, o que obviamente foi impedido pelo banimento dos clubes ingleses. O Everton tinha em seu elenco nomes como o bom goleiro Neville Southall, o habilidoso Peter Reid e, é claro, o matador Graeme Sharp, artilheiro do time na temporada. Até a Copa da UEFA poderia ter vindo, quando o Everton fora vice-campeão na temporada seguinte, com Gary Lineker no elenco.

Outro clube afetado foi o time que mais concorria com o Liverpool em sua era de ouro, o Arsenal. Os comandados de George Graham conquistaram o título inglês na temporada de 1988/1989, numa corrida sinistra com o Liverpool que só foi definida no último jogo, que era um confronto direto, graças a um gol nos acréscimos. Alan Smith era o grande destaque dos Gunners, que tinham bons nomes e poderiam levar o inédito título europeu. Aquela, porém, seria a única chance dos Gunners neste período, já que quando o clube voltou a ganhar o campeonato, já não valia mais o banimento de clubes ingleses e o Arsenal fez péssima campanha.

Além do que se refere a Liga dos Campeões, obviamente houveram os campeões da FA Cup que não puderam jogar a Recopa Européia. Neste caso, deixaram de participar da competição o Manchester United, o Everton, o Conventry City, o Wimbledon, estes dois últimos clubes que não voltariam a ter outra chance e o Liverpool. Curiosamente, no caso da Recopa Européia, no primeiro ano em que ingleses voltaram a jogar, o Manchester United garantiu o título da competição. A Inglaterra, aliás, é o país com mais títulos da antiga competição.

No caso da Copa da UEFA, na época as vagas iam para os times que ficavam entre a segunda e a quinta colocação, além do campeão da Copa da Liga Inglesa. O Norwich City acabou afetado nessa segunda categoria, junto a times como Oxford United, Luton Town e o Nottigham Forest. Entre os que acabaram por não jogar a Copa da UEFA, temos equipes como o Southampton, o West Ham, o Sheffield Wednesday, entre outros. Em alguns casos, seria a primeira disputa européia de algumas equipes.

Antes, porém, de lamentar pelos clubes que deixaram de ter suas chances no futebol europeu, é preciso lembrar que a violência entre torcidas não era um problema de exclusividade dos Reds. A violência no futebol inglês era um problema predominante no país todo e pode-se imaginar que mais problemas ocorreriam envolvendo torcidas inglesas no periodo em que os times ficaram banidos. Foi apenas depois de Hillsbrough que a Inglaterra revolucionou a segurança e a estrutura de seus estádios. De uma maneira geral, quando os clubes ingleses voltaram as competições européias, a violência já deixava de ser um problema. 

Hoje, se questiona, com certa razão, os exageros envolvidos nessas mudanças, mas a grande maioria delas foi bem vinda e virou exemplo para diversos lugares do mundo. Uma das discussões que ocorre hoje no país (e no Reino Unido como um todo) é o direito de se torcer de pé, a criação das "safe-stands", seguindo o exemplo de Dortmund, entre outras ações. A segurança não precisa significar que estádios virem teatros e hoje a Terra da Rainha percebe isso. Porém, quando vemos o que se tornou a Premier League é preciso lembrar que infelizmente, vidas foram perdidas e sangue foi derramado pela violência e também pela negligência. É preciso que se cobre sempre, para que as tragédias continuem sendo um passado distante.
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