A Seleção Brasileira vestindo branco depois da Copa de 1950

Por Lucas Paes
Foto: Arquivo

Equipe do Brasil perfilada para amistoso contra a Itália em 1956

O Maracanaço é um dos episódios mais lembrados e tristes da história do Brasil no futebol e no país como um todo. Ocorrida há exatos 70 anos, em 16 de julho de 1950, a derrota para os uruguaios no Maracanã deixou uma ferida aberta na história do futebol brasileiro e criou vilões que carregaram o fardo até a verdadeira vergonha passada pelos Canarinhos em 2014. Entre tantas lendas relacionada a esse jogo, uma das mais difundidas foi como o Brasil aposentou a camisa branca devido a essa derrota, pois ela foi acusada de dar azar. Porém, a história conta que não foi bem assim.

Para começar a vasculhar a história não se precisa nem caminhar muito. O branco voltou a ser usado pelo Brasil imediatamente depois da Copa do Mundo de 1950. Foram basicamente 2 anos onde a equipe não jogou até a disputa do Campeonato Pan-Americano de 1952, onde a seleção jogou a competição com o mesmo uniforme que usava em 1950: camisas brancas, calções azuis e meias brancas. O título inclusive fica com os brasileiros naquela competição.

O fato é que aquela década na verdade, como comentou o jornalista Mário C. Gonçalves, que estuda a história de uniformes de futebol, representou mudança na questão de uniformes como um todo no mundo, não só envolvendo os brasucas. Segundo ele: "antes dessa época, se os uniformes de times e seleções fossem iguais, uma das equipes pegava emprestado o uniforme de um clube ou da seleção local, geralmente". Ele ainda complementou que "acontecia bastante também das equipes simplesmente jogarem com uniformes parecidos mesmo". Foi o que ocorreu por exemplo quando Leonidas e seus companheiros enfrentaram a Polônia na Copa do Mundo de 1938 e a futura terceira colocada da competição usou uma camisa azul clara que provavelmente pertencia ao Racing Estrasburgo.

Tem se no imaginário popular a questão do concurso para a definição de um "novo" uniforme para o Brasil, que realmente ocorre, promovido pelo jornal Correio da Manhã, em 1953, em que vence o uniforme amarelo com detalhes em verde, calções azuis e meias brancas, desenhado pelo gaúcho Aldyr Garcia. Curiosamente, um ano antes a combinação já havia sido usada nos Jogos Olímpicos de Helsinque. Porém, isso não necessariamente representou uma aposentadoria do uniforme branco de uma vez só ou mesmo a imediata adoção da camisa "canarinho". No Sul-Americano de 1953, por exemplo, o Brasil ainda usa o uniforme branco nas partidas.

Apesar de utilizada em 1952, a camisa amarela ganha de vez a popularidade que teria em 1954, na Copa do Mundo onde o Brasil joga todas as partidas com a clássica combinação canarinho, azul, branco. Corroborando com o que foi dito por Mário, de fato os brasileiros sequer levaram um segundo uniforme a Suíça. Naquele ano, a equipe caiu para a Hungria nas quartas de final. 

Um ano muito interessante nessa questão toda é 1956, quando o Brasil joga apenas ou de branco ou de azul. Em todas as partidas daquele ano a equipe utilizou ou uniformes azuis ou uniformes brancos, como por exemplo em amistoso contra a Itália, onde os futuros canarinhos acabam duelando de branco, a exemplo da foto que abre essa matéria. Em 13 de março de 1957 ocorre o que foi por muito tempo último registro da futura campeã mundial usando camisas brancas em um jogo competitivo, quando enfrenta o Chile e vence por 4 a 2.

A partir daí, se inicia um longo hiato na utilização da camisa branca. O primeiro título da Copa do Mundo, em 1958, com a campanha sendo quase toda jogada com a "amarelinha", vem na verdade jogando de azul, já que a Suécia também jogava de amarelo e foi preciso buscar um uniforme as pressas para a final, vindo também daí a história relacionando a camisa ao manto de Nossa Senhora de Aparecida, difundida por Paulo Machado de Carvalho. Há também a versão que diz que aquela camisa já seria usada pela equipe normalmente. O fato é que naquele dia o azul entrou pra história e passou a ser fixamente o segundo uniforme brasileiro.

Mesmo campeã mundial, mesmo com o azul já também marcado na sua história, a "bagagem" brasileira para a Copa do Mundo disputada no Chile, no ano de 1962, tinha ainda um uniforme branco. Procurando evitar problemas de falta de uniforme, a CBD levou para aquela competição três camisas diferentes. A canarinho, o azul campeão quatro anos antes e o branco, caso necessário. A segunda e terceira opções acabaram não sendo utilizada e então tivemos o que é entendido como a aposentadoria da camisa branca.


Foi só em 2004, num amistoso que comemorava o centenário da FIFA, envolvendo brasileiros e franceses, que voltamos a ver o Brasil usar camisas brancas. No primeiro tempo daquele duelo, disputado em Paris, os atuais campeões do mundo na época usaram uma camisa semelhante a primeira usada em todos os tempos pelo país, que tinha ainda os calções brancos e meiões azuis. Então, entramos em outro hiato até a primeira partida da Copa América de 2019, disputada no Brasil, quando os donos da casa voltam a utilizar branco na estreia diante da Bolívia, no Morumbi, em 14 de junho. Mesmo jogando apenas para o gasto, os comandados de Tite vencem por 3 a 0.

Setenta anos depois daquela que era a pior derrota da Seleção Brasileira até o vexame passado diante da Alemanha, não há na verdade grandes motivos para se temer uma volta do uniforme branco. O modelo usado no ano passado foi e ainda é um sucesso de vendas e entra facilmente no hall de camisas mais bonitas da história da Seleção Brasileira. Apesar de não ser o plano, a Confederação Brasileira de Futebol poderia passar sim a usar a camisa como uma terceira opção possível, fazendo quem sabe justiça a alma de todos os envolvidos no Maracanaço, já que se uma derrota em uma decisão é azar, o que seria um 7 a 1 dentro de casa sofrido jogando de amarelo?
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