O dia em que o Lajeadense enfrentou a Seleção Brasileira

Por Tiago Cardoso
Foto: arquivo histórico

Jogadores do Lajeadense e da Seleção Brasileira juntos

No interior do Rio Grande do Sul, na região conhecida como Vale do Taquari, o Lajeadense luta para se reencontrar com a história e com as glórias do passado. 

Na segunda divisão do campeonato gaúcho, conhecida na porção mais meridional do Brasil como divisão de acesso, o Lajeadense busca retornar à elite, da qual está afastado desde o ano de 2016. Na divisão de acesso, onde, ao seu final, somente dois abnegados clubes ascendem à elite do futebol nas terras de Mário Quintana e Getúlio Vargas, até a paralisação do torneio em decorrência da maior pandemia desde a gripe espanhola, ocorrido entre 1918 e 1920, que, inclusive, adiou a primeira edição do estadual para 1919, havia disputado três partidas e anotado quatro pontos, após vencer um jogo, empatar outro e ser derrotado em apenas um jogo. 

No ano de 1991, a outrora potência União Soviética se dissolvia. Ayrton Senna tornava-se tri-campeão mundial de Fórmula 1, no Japão, com milhares de brasileiros acordados na madrugada a espera da execução do “tema da vitória” na TV, que marcava suas vitórias, o último título brasileiro na categoria. A voz do Queen, umas mais poderosas da histíria do rock and roll, silenciava para sempre, pois Freddie Mercury sucumbia ao vírus da AIDS. A Guerra de Golfo chegava ao fim pouco mais de seis meses após o Iraque, sob a batuta de Saddam Hussein, invadir o Kwait. Em Assunção, Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai criam o Mercosul. E, com a queda do socialismo real no Leste Europeu, chegava ao fim a aliança militar conhecida como Pacto de Varsóvia. 

Neste cenário, o Lajeadense, que estava na elite do futebol gaúcho desde 1987, com boas campanhas, foi convidado para realizar um amistoso contra a Seleção Brasileira, no dia 4 de julho, no estádio que repousa às margens do rio Guaíba em Porto Alegre, o Beira Rio. Nas estatísticas oficiais da Seleção Brasileira não consta como jogo oficial, mas como jogo-treino. A Seleção Canarinho, à época apenas tri-campeã mundial de futebol, feito que dividia com Alemanha e Itália, à época, também detentoras de três taças do mundo -atualmente ambas tetra. 

No primeiro semestre, o Lajeadense havia disputado a Copa Governador do Estado, torneio oficial realizado pela Federação Gaúcha de Futebol, ocasião em que não conseguiu se classificar entre os quatro primeiros colocados no octogonal da primeira fase, os quais se somariam a Inter, Grêmio, Juventude e Caxias na segunda fase. Assim mesmo, recebera o convite para enfrentar a Seleção Brasileira, embarcando numa jornada épica na capital, a pouco mais de 110 quilômetros das terras onde a bandeira alvi azul tremula solenemente. 

O confronto do dia 4 de julho terminou com o placar de 4 a 0 a favor da Seleção Brasileira, mas o feito do Lajeadense entrou para a história, uma vez que teve a honra de enfrentar a seleção mais vitoriosa do planeta, um feito para poucos clubes do planeta.

Chamada para a transmissão da Rádio Guaíba no Correio do Povo

Diante de um acordo entre a Federação Gaúcha de Futebol, a CBF e a direção do Alvi Azul do Vale do Taquari foi permitida a presença de torcedores do Lajeadense no estádio, que, obviamente, empurraram a sua “pátria”, que naquele dia desfraldava uma bandeira azul e branca, e não a tradicional flâmula azul, verde e amarela. 

A Seleção Brasileira preparava-se para a disputa da Copa América, competição da qual era atual campeã, em 1991, no Chile, onde estrearia cinco dias depois, vencendo a Bolívia. No elenco da Seleção Brasileira havia muitos jogadores que conquistariam o tetra campeonato mundial em 1994, como Taffarel, Cafu, Ricardo Rocha, Branco, Mauro Silva, Mazinho, Márcio Santos e Raí. No comando do escrete canarinho estava Paulo Roberto Falcão, maior jogador da história do Internacional, o qual comandava Renato Gaúcho, maior ídolo da história do Grêmio, à época atuando pelo Botafogo. Hoje comentarista, o polêmico Neto também fazia parte do elenco do escrete canarinho naquele dia e na Copa América que seria disputada em alguns dias na terra de Pablo Neruda, entre o Pacífico e a Cordilheira dos Andes. 

Naquela quinta-feira gélida de inverno gaúcho, o Lajeadense pisava a relva sagrada do Gigante da Beira Rio, para, às 21 horas, dar início ao histórico embate, num 4-3-3 escalado pelo técnico Gilberto Machado, formado por Celso, Nico, Luis Fernando, Amauri e Evandro; Ênio, Fernando e Vandeco; Denilson, Gelson e Everton Giovanella, comandados pelo técnico Gilberto Machado. 

O atacante Gelson, no segundo semestre daquele ano, tornar-se-ia o primeiro e até hoje único jogador do Lajeadense a conquistar a artilharia do estadual, balançando por 17 vezes as redes adversárias. O ponteiro-esquerdo Everton Giovanella se tornaria o atleta daquele histórico e mítico Lajeadense com maior destaque e projeção internacional, passando pelo Internacional na temporada seguinte, de onde, sem muitas oportunidades, retornaria ao clube. Então, partiu para o Velho Mundo onde jogou em Portugal e posteriormente na Espanha, país em que, após passagem pelo Salamanca, jogou pelo Celta de Vigo entre 1999 e 2006. No Celta de Vigo, participou da única edição de Liga dos Campeões da Europa do clube, chegando às oitavas de final, quando foi foram parados pelo Arsenal. Em Vigo, atuando de volante e não mais pelo flanco esquerdo que o consagrara no Vale do Taquari, jogou ao lado de Mazinho, que esteve no histórico jogo entre Lajeadense e Seleção Brasileia.


Mas a saga alvi azul se estendeu por todo o segundo semestre, quando conquistou o quarto lugar no campeonato estadual, sua melhor participação até então, ficando somente atrás dos gigantes da capital e do Juventude, que é o maior clube do interior. O Lajeadense chegou à última rodada de seu grupo na fase semifinal do estadual, pois vencera o Grêmio pelo placar de 1x0 no antigo estádio Florestal, alcançando seis pontos contra 7 do Grêmio (lembando que à época a vitória valia dois pontos), mas na última rodada perdeu para o São Luiz de Ijuí pelo placar de 4x1 e assistiu ao Grêmio vencer o Glória de Vacaria pelo placar de 2x1 e se classificar à final, onde enfrentou o Inter. O Lajeadense venceu todos os três jogos no Florestal, sua antiga casa, contra Grêmio, Glória e São Luiz, mas não manteve a mesma força nos jogos de visitante, não marcando pontos. 

Em 1994, o clube ficou em 21º entre 23 participantes e não participaria do estadual do ano seguinte, voltando à divisão de elite somente em 2010, um ano antes de seu centenário, tendo permanecido na elite até 2016, ou seja, sete temporadas seguidas, uma a menos do que o primeiro período dourado do clube, onde esteve na elite por oito temporadas seguidas entre 1987 e 1994. Nesta segunda era dourada, conquistou o vice-campeonato estadual no ano de 2013, sua melhor participação na história, assegurando-lhe uma vaga na Copa do Brasil do ano seguinte e na Série D do Campeonato Brasileiro do mesmo ano, no segundo semestre, atingindo seu ápice com a conquista da Recopa Gaúcha, em 2014, sobre o Internacional, que tinha Alisson no gol, nos pênaltis, sob os olhares de quase 5 mil pessoas na Arena Alvi Azul. 

Enquanto escrevo o epílogo deste artigo, em algum rincão do Vale do Taquari alguém sonha com novas epopeias em azul e branco.
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Um comentário:

  1. Parabéns pelo trabalho!! Sempre bom relembrar os bons momentos do nosso Clube.

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