sábado, 8 de fevereiro de 2020

Como Afonsinho fez de sua barba comprida a conquista do Passe Livre

Por Diely Espíndola
Foto: arquivo histórico

Afonsinho foi o primeiro a conseguir o passe livre, revolucionando o futebol brasileiro

Afonso Celso Garcia Reis. Dificilmente os fãs do futebol, especialmente o futebol carioca, nunca ouviram falar de Afonsinho. Nos gramados, Afonsinho fez história como o meia talentoso que chegou a carregar a braçadeira de capitão do Botafogo de 1968, campeão da Taça Brasil e base da vitoriosa Seleção Brasileira da Copa de 70. 

Mas fora das quatro linhas, Afonsinho tem também muita história a ser contada. Seus feitos extracampo construíram um legado que talvez seja ainda maior do que o construído com a bola nos pés. 

Em diversos países pelo mundo, houve governos ditatoriais que se utilizavam do futebol para propaganda e aceitação entre a opinião pública. Mas na mesma medida que alguns clubes eram deliberadamente instrumentos de líderes autoritários, outros tantos foram grandes representantes da luta pela liberdade e democracia. 

No entanto, na contramão do mundo, o futebol no Brasil, ou pelo menos os jogadores, nunca foram grande exemplo de envolvimento com as pautas políticas do país. Além da famosa e necessária Democracia Corintiana, raríssimos foram os casos de jogadores que escolheram se posicionar sobre o que acontecia na política brasileira. E entre estes casos raros, está Afonsinho. 

Afonsinho não era um jogador comum. Já atraía holofotes para si pelo fato de dividir seu tempo entre os gramados e a faculdade de medicina. Mas não foi somente por sua vida acadêmica que Afonsinho se tornou um grande nome na história. 

Em 1965, Afonsinho chegava ao Botafogo do Rio de Janeiro. Com sua barba e cabelos grandes, o jogador atraía olhares desconfiados dos mais conservadores. Àquela época, com a ditadura militar a todo vapor no Brasil, as características de Afonsinho eram mal vistas, já que lembravam a aparência de grandes comunistas como Che Guevara. Dificilmente homens que optavam por não aparar sua barba e seus cabelos, passavam despercebidos pelas cada vez mais constantes “duras” policiais e militares.


Some isso ao fato de Afonsinho ser estudante universitário, e um grande questionador, e tenha nas mãos a receita perfeita para ver surgir um alvo dos militares ávidos por descobrir e desmantelar possíveis planos de luta contra o governo. E foi exatamente o que aconteceu. 

A ditadura militar via em Afonsinho um dos possíveis líderes de movimentos opositores no meio futebolístico. O jogador passou a ser monitorado por órgãos do governo, chegando a ser interrogado algumas vezes. 

E o Botafogo, que se mostrava um clube submisso e apoiador do regime, pouco fez em defesa do jogador. Ao contrário, decidiu puni-lo. Já que Afonsinho não abandonava os movimentos estudantis, a postura questionadora e a barba comprida, seria então emprestado ao Olaria. Segundo um dirigente alvinegro, a medida seria para ofusca-lo, e nas suas palavras, “enterrá-lo vivo”. O que a diretoria alvinegra não contava, no entanto, era que Afonsinho não dependia de um grande clube para brilhar. Ao chegar no Olaria em 1971, foi um dos responsáveis por uma das mais memoráveis campanhas do clube da Rua Bariri, no que ficou conhecido como a “Era de Ouro do Alvianil”. 

Mas o jogador voltaria ao Botafogo, já que seu passe e seus direitos pertenciam totalmente ao clube. Era este o início de um dos maiores marcos da justiça desportiva, e que abriria as portas para que os jogadores pudessem decidir seus destinos, muito antes da Lei Pelé. 

Novamente em solo alvinegro, Afonsinho mais uma vez sofreria uma tentativa de ter sua voz calada e sua postura oprimida. O clube, e especialmente o conservador técnico Zagallo, exigiram que o jogador cortasse seus cabelos e sua barba. Do contrário, não jogaria. 

Afonsinho passou meses encostado, e cada vez mais indignado com o fato de ser, escravo dos interesses políticos e econômicos dos clubes. O meia iria então ser pioneiro na briga na justiça desportiva pelo direito de ser dono de si.

A história de Afonsinho, em vídeo do Brisa Esportiva

Após muita luta, tentativas de boicote, e o que mais se possa imaginar que uma figura declaradamente socialista pudesse passar em plena ditadura, Afonsinho alcançou a conquista histórica: seu passe era seu, e somente seu. 

Conquistar tamanha liberdade em plena ditadura colocou o meia não somente na história do futebol, mas também na história do Brasil. Aos 34 anos o jogador se aposentava, cada vez mais dedicado à medicina, e mais do que nunca, livre para escolher o que queria fazer de sua carreira. 

Atualmente Afonsinho, aos 72 anos, pode ser encontrado em seu consultório no Rio de Janeiro. Talvez pela idade, já não tenha mais o furor e a paixão da revolução da juventude. Mas seus ideais ainda estão lá. E sua barba intacta.
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