quarta-feira, 8 de março de 2017

Como o futebol foi usado de diversas formas na ditadura militar

Por Lucas Paes

Carlos Alberto levantando a taça com o ditador Médici

Entre 1964 e 1985, o Brasil viveu um dos períodos mais negros de sua história: a ditadura militar. Além de todo já conhecido histórico de perseguições, mortes e restrições à liberdade da época, os governos deste periodo tentaram usar o futebol de várias maneiras. O sumiço da Taça Jules Rimet é, inclusive, atribuído por alguns aos militares. Neste texto colocaremos alguns episódios de como a Arena (Aliança Renovadora Nacional) e todo o governo da época tentou usar o futebol como “arma” do regime.

A primeira vez em que o regime militar usou o futebol como forma de propaganda, ou como uma maneira de melhorar sua imagem, foi antes da Copa de 1970: com a morte do estudante Edson Luiz, o governo perdia popularidade e vivia o momento mais intenso do conflito entre correntes políticas diversas dentro de seus apoiadores. Sabendo disso, o presidente Costa e Silva apelou ao presidente da CBD (Confederação Brasileira de Desportos) na época, João Havelange e ao vice, Paulo Machado de Carvalho, para que fizessem de tudo para trazer a Copa do Mundo para o Brasil.

Mesmo com Costa e Silva afastado, Médici seguiu com os planos e teve certo êxito, já que o Brasil levou o tri mundial, com o que foi talvez a mais brilhante seleção que o mundo já viu. O período posterior ao título mundial coincidiu também com o momento de maior repressão no regime, onde várias propagandas de cunho ultranacionalista foram lançadas, além de diversas canções, a mais famosa delas a “Pra Frente Brasil”, usada até hoje em época de Copa do Mundo.

A famosa imagem com o lema "Brasil ame-o ou deixe-o"

Depois disso, ainda no governo Médici, houve uma total militarização da CBD e da Seleção Brasileira. Diversos cargos na confederação e funções na seleção foram confiados à militares. O mais importante foi o de presidente da organização, confiado ao Almirante Heleno Nunes, a quem foi incumbida a tarefa de criar um Campeonato Brasileiro e utiliza-lo para fins políticos.

Em um momento onde os clubes dependiam de dinheiro vindo do governo, foi necessária ajuda do Ministério da Cultura e do Esporte para que o Campeonato Brasileiro finalmente acontecesse. Durante a primeira década do Brasileirão, era muito comum que influências políticas fizessem com que um clube jogasse o nacional, que na época não era tão organizado e sequer tinha rebaixamento.

As constantes inclusões de clubes no nacional acabaram por criar até uma frase: “Onde a Arena vai mal, um time no Nacional”. Um exemplo claro de como isso acontecia foi a inclusão do Itabuna, da Bahia, no campeonato de 1978. Mas a ocasião onde isso ficou escancarado foi o inchadíssimo Brasileirão do ano seguinte, com 94 times jogando o certame, que não contou com Santos, São Paulo e Corinthians, clubes que consideravam o estadual mais lucrativo.

Heleno Nunes foi escolhido pela Ditadura para presidir a então CBD

A influência da Arena nos torneios nacionais causou um atraso evidente até hoje no futebol brasileiro. As relações de dependência dos clubes para com governos e, principalmente, com federações estaduais permeiam o futebol nacional até hoje. Estes fatores, aliados a administrações amadoras e/ou corruptas faz com que os clubes sigam com enormes problemas financeiros, seja nos grandes ou nos pequenos.

Houve, nos anos 1980, uma tentativa de mudança, quando em meio a uma crise financeira imensa, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), que foi criada justamente para que o futebol fosse exclusivamente administrado pela entidade, permitiu aos clubes a organização do Brasileirão de 1987, a famosa Copa União, já com um pensamento novo, já que o país vivia o momento de redemocratização. Só que o rápido sucesso do torneio fez com que a CBF voltasse a se meter na competição e causou toda a situação que é conhecida até hoje (Flamengo x Sport). Na época, as relações entre o futebol e os militares tinham resquícios nos clubes, já que a redemocratização havia sido recente. 

Hoje, o país vive um período semelhante no que tange ao futebol, já que os clubes lutam cada vez mais para escapar da dependência das federações e criar uma nova organização para os campeonatos. Porém, ainda há um grande caminho a ser andado para que o Brasil tenha um futebol organizado de maneira digna as suas tradições, e parece que cada dois passos para a frente são atrasados por um para trás.

José Maria Marin é uma herança maldita deixada pela ditadura no futebol

Até os dias atuais, há pessoas envolvidas com o futebol que começaram seu envolvimento na época da ditadura. José Maria Marin presidiu a CBF recentemente, sendo que é, inclusive, acusado de participar do assassinato de Vladmir Herzog nos porões do DOI-CODI (Destacamento de Operações e Informações – Centro de Operações de Defesa Interna). 

Já a postura das federações parece não perceber que a ditadura acabou, já que diversos clubes já sofreram com os mandos e desmandos das entidades, há inúmeros casos de repressão à clubes que tentaram bater de frente com federações. Mas quem mais sofre com a censura destas organizações são os torcedores. Em São Paulo, por exemplo, qualquer tentativa de entrar com uma faixa de protesto contra a FPF é barrada pela polícia. Há alguns anos, um árbitro não permitiu que um jogo do Avaí fosse iniciado enquanto uma faixa de protesto contra Ricardo Teixeira não fosse retirada do estádio. 

O regime militar brasileiro não foi o único regime totalitário a utilizar o futebol como forma de publicidade para o governo/ideologia. Antes, muito antes, Hitler fez isso no regime nazista, Mussolini no regime fascista. No mesmo período dos “anos de chumbo”, Pinochet (no Chile) e os militares argentinos tentaram usar o regime como forma de publicidade para o futebol. Manchas na bonita história do esporte mais popular do planeta.
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