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Luto! Morre Geraldo do Carmo, jogador que passou por Ponte Preta e Guarani

Com informações da Agência Futebol Interior
Foto: reprodução

Geraldo do Carmo estava com 96 anos e era filho de Migué do Carmo

Morreu na noite desta quinta-feira (28) o ex-jogador de futebol Geraldo do Carmo, aos 96 anos de idade, filho de Miguel do Carmo, este conhecido por ser o primeiro jogador de futebol negro da história do Brasil, nos anos de 1900, quando fundou a Associação Atlética Ponte Preta.

Geraldo seguiu a mesma carreira do pai e se tornou jogador do esporte que antecessor fez história, principalmente por ter sido um atleta negro praticando um esporte popularmente de brancos. O filho nasceu em 18 de novembro de 1926, era o ex-atleta bugrino mais velho ainda vivo, e então foi velado e enterrado no Cemitério da Saudade, em Campinas, sua cidade natal, das 12h às 15h desta sexta.

O ex-atleta, que atuou como zagueiro e volante, iniciou sua carreira em 1945 no EC Mogiana, um antigo e extinto clube da cidade, conquistou a Taça Cidade de Campinas pelo tricolor ferroviário quatro anos depois. Em 1950 se mudou para o Guarani, que disputava o Campeonato Paulista da 1ª Divisão de Profissionais, onde permaneceu também nos dois anos seguintes.

Depois de uma passagem pelo XV de Jaú, em 1952 transferiu-se para o CA Linense, onde foi campeão da 2ª Divisão, ao lado de Dito Brás. Foram cinco anos pelo clube, onde se tornou ídolo.


Geraldo chegou a lembrar de como foi sua chegada ao Guarani, em entrevista concedida em 2011: “Eu havia acertado, em uma sexta-feira, com o Moyses Lucarelli (então homem forte no clube) para jogar pela Ponte Preta. Mas, no dia seguinte, o Guarani apareceu na minha casa e me levou para São Paulo. No domingo, entrei em campo. Fui contratado para resolver os problemas da defesa do Guarani. Mas na estreia, perdemos de 10 a 0.”

A estreia que o ex-jogador fez referência aconteceu no dia 11 de novembro de 1950, quando o Bugre visitou o São Paulo na 11ª partida do Campeonato Paulista daquele ano, e acabou sofrendo a goleada fora de casa, com cinco gols de Augusto, três de Teixeirinha e dois de Leopoldo.

O primeiro negro do futebol brasileiro – Futebol e minorias

Foto: reprodução

Miguel do Carmo, na Ponte Preta, foi o primeiro jogador negro do futebol brasileiro

O futebol é uma força inquestionável. Capaz de unir povos, vozes, arrastar multidões. Mas às vezes também é cruel. Uma crueldade imposta por quem o gere, às vezes corroborada por quem torce, mas que não condiz de nenhuma forma com o poder do futebol por si só, um poder para todos, democrático, para o povo. 

Nos últimos anos, tem-se levantado diversos movimentos para a inserção de grupos minoritários no futebol, especialmente mulheres e gays. Cantos de torcida homofóbicos tem sido veementemente reprimidos, e a resposta padrão das arquibancadas é: “mas sempre foi assim”, numa tentativa ferrenha de perpetuar preconceitos, e não mudar o que tem urgência em ser mudado. 

Mas já imaginou se, lá atrás, essa resistência ao novo tivesse dado certo? Quando uma realidade é muito natural para nós, nós acabamos esquecendo de como era o mundo antes dela. Hoje é impossível imaginar o futebol sem jogadores negros. Mas nem sempre foi assim. Precisou haver luta, protestos, enfrentamento, para que hoje fosse natural algo que era praticamente proibido. 

Quando falamos sobre a entrada do negro no futebol brasileiro, lembramos automaticamente do Vasco, e não é sem motivo. Em 1923 o clube foi alvo da mais escancarada tentativa de vetar jogadores negros em competições, a ponto de ser proibido de disputar caso não dispensasse seus 12 (às vezes a história conta 13) jogadores negros e operários. O Vasco resistiu, respondeu e venceu. Mas hoje a história não é sobre o Vasco da Gama. É sobre quem começou essa luta bem antes dele. 

Em 1905, o primeiro clube do Brasil escalou oficialmente um jogador negro em uma competição. O Bangu iria disputar o campeonato municipal do Rio, e contava com Francisco Carregal em seu elenco. Mas a Liga Metropolitana de Futebol não permitiu que aquele jogador negro fizesse parte do evento, e o Bangu se afastou do campeonato. Mas ainda precisamos voltar mais um pouquinho na história. 

Confira o vídeo do Brisa Esportiva

Em 11 de agosto de 1900, surgia em Campinas um novo clube de futebol. A Ponte Preta tinha entre seus fundadores homens negros como Benedito Aranha, que fez parte da primeira diretoria do clube. 120 anos depois, ainda é raro vermos pessoas negras em cargos altos nos clubes brasileiros. Mas na Ponte Preta, esta sempre foi a realidade. 

Ainda em 1900, a Ponte teria também o primeiro jogador negro do futebol brasileiro: Miguel do Carmo. Sim, este título é reivindicado pelo clube inclusive junto à FIFA, pois de fato não havia ninguém que tivesse aberto as portas que a Ponte Preta abriu.

E junto com o pioneirismo, também vieram as críticas. No entanto, não vieram da torcida da Ponte, mas de seus rivais. Segundo contam diversas histórias, seus oponentes os chamavam de “clube e torcida de macacos” ou “macacada”. A Ponte no entanto abraçou a alcunha inclusive como forma de protesto, e diz-se que vem daí o apelido do clube, a querida Macaca. 

Ponte Preta, Vasco e Bangu nos mostram que a história se repete. A resistência que encontraram ao brigar com o sistema, se perpetua até hoje. Ainda há grupos minoritários sem espaço nas arquibancadas, nas diretorias, na representatividade. A história nos mostra que perpetuar essas diferenças com a desculpa de que “sempre foi assim”, de que “é coisa do futebol”, não beneficia a ninguém. O que seria de nós se lá atrás, tivéssemos acreditado nisso e não tivéssemos aberto os horizontes para a mudança? Já imaginou o futebol sem Pelé? Sem Garrincha? Sem Leônidas da Silva? 


O futebol por si só é democrático, é abrangente, está presente no DNA brasileiro. Não é justo que homens brancos e heterossexuais se apropriem dele, pois ele é de todos. E não é de ninguém. Quantos grandes ídolos nós possivelmente já perdemos porque há torcidas, dirigentes e mercados que não estão dispostos a dividir o que sequer lhes pertence? 

Estamos em 2020. Que tenhamos todos a mesma coragem que em 1900 a Ponte Preta teve, e que mudou não só o futebol, mas também a História.
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