A aposta da CBF em Carlo Ancelotti reacende o debate sobre o complexo de vira-lata do futebol brasileiro, a formação de panelinhas na Seleção e o espaço negado aos jovens talentos
Por André Louro*
Foto: Rafael Ribeiro / CBF
Ancelotti dirige a Seleção Brasileira
Existe uma doença crônica que assola boa parte da mídia esportiva brasileira: o estrangeirismo. É a crença cega, quase religiosa, de que a salvação da Seleção Brasileira reside invariavelmente além-mar. Sob essa ótica distorcida, o treinador estrangeiro é sempre um gênio incompreendido, enquanto o brasileiro é visto como ultrapassado. Da mesma forma, o jogador que atua na Europa ganha status automático de superioridade, enquanto os destaques do futebol nacional são frequentemente subestimados.
Esse complexo de vira-lata contaminou até mesmo os gabinetes da CBF e culminou no cenário atual da Copa do Mundo de 2026. Com Carlo Ancelotti no comando, o Brasil tropeça, sofre diante do Marrocos e avança de forma irregular no torneio. Ainda assim, a principal justificativa apresentada por seus defensores segue sendo a mesma: a suposta falta de tempo para trabalhar.
A história desmonta a desculpa da falta de tempo
A narrativa da falta de preparação não resiste aos fatos. O Brasil conquistou seus cinco títulos mundiais sob o comando de técnicos brasileiros ou profundamente identificados com a cultura do nosso futebol.
Em 1958, Vicente Feola teve pouco mais de três meses para montar a equipe campeã do mundo. Mais importante do que o tempo, teve coragem para apostar em dois jovens chamados Pelé e Garrincha. Ignorou o conservadorismo da época e construiu uma seleção ousada e revolucionária.
Em 1970, Mário Zagallo assumiu uma equipe cercada por pressão e, em aproximadamente dois meses e meio, organizou aquela que muitos consideram a maior Seleção Brasileira de todos os tempos.
Já Luiz Felipe Scolari recebeu uma equipe desacreditada em 2001 e, em menos de um ano, formou o grupo que conquistaria o pentacampeonato em 2002.
Ancelotti, por sua vez, teve 13 meses para trabalhar. Diante desse histórico, a justificativa da falta de tempo parece mais uma tentativa de esconder problemas estruturais do que uma explicação plausível para o desempenho abaixo das expectativas.
Continuidade excessiva e o fortalecimento das panelinhas
Outro problema evidente é a crença de que manter a base de um ciclo para outro garante automaticamente entrosamento e evolução. Na prática, essa continuidade excessiva tem favorecido a formação de panelinhas dentro da Seleção Brasileira.
O principal exemplo é a relação do grupo com Neymar. A idolatria e a proteção em torno do camisa 10 criaram uma hierarquia rígida, dificultando a renovação natural do elenco e reduzindo o espaço para jovens atletas que poderiam trazer novas soluções ao time.
Endrick e Rayan simbolizam a renovação ignorada
O reflexo mais evidente dessa estrutura fechada é a dificuldade para dar oportunidades reais a jogadores como Endrick e Rayan.
Antes mesmo da convocação final para a Copa do Mundo, Casemiro já indicava que o atacante do Real Madrid teria de esperar por futuras oportunidades. O discurso protocolar evidencia uma resistência à renovação que há anos acompanha a Seleção Brasileira.
Enquanto isso, os números de Endrick reforçam o clamor popular por mais minutos em campo. Sempre que recebeu oportunidades, mostrou poder de decisão e eficiência ofensiva.
O mesmo acontece com Rayan, que representa uma alternativa de velocidade, intensidade física e ousadia. Em vez de apostar em um futebol mais agressivo e renovado, a comissão técnica insiste em soluções que ainda não entregaram os resultados esperados.
As contradições de Ancelotti e o caso Neymar
Quando chegou à Seleção Brasileira, Carlo Ancelotti afirmou que convocaria apenas atletas em plenas condições físicas. Entretanto, a prática se mostrou diferente do discurso.
Neymar ficou fora de convocações anteriores mesmo em momentos de melhor condição física. Agora, às vésperas dos jogos decisivos da Copa do Mundo, o craque foi incluído na lista apesar das dúvidas sobre sua recuperação.
O resultado é um ambiente de incerteza. A torcida não sabe se Neymar estará apto para enfrentar o Haiti, se fará sua estreia diante da Escócia ou se está sendo preservado como uma aposta de emergência para os momentos decisivos.
O desprestígio ao futebol brasileiro
Outra decisão que levanta questionamentos é a preferência por Igor Thiago em detrimento de Pedro, atacante que já demonstrou seu valor em alto nível no futebol brasileiro.
A mensagem transmitida é clara: o selo europeu continua pesando mais do que o desempenho nos gramados nacionais.
Curiosamente, se a intenção da CBF era buscar referências internacionais, ignorou justamente os estrangeiros que melhor compreenderam o futebol brasileiro nos últimos anos. Tanto Jorge Jesus quanto Abel Ferreira mergulharam na realidade do país, entenderam a pressão do ambiente local e construíram equipes competitivas e agressivas.
A escolha por Ancelotti representou uma aposta arriscada em alguém que, apesar do currículo extraordinário, ainda busca entender a essência do futebol brasileiro.
Neymar como maestro e a esperança do Hexa
Apesar dos problemas, a esperança da torcida continua depositada no talento individual. Caso Neymar recupere sua melhor condição física, pode exercer um papel decisivo na campanha brasileira.
Mas talvez não como protagonista solitário.
A função ideal para o camisa 10 seria atuar como organizador, utilizando sua visão de jogo para potencializar atletas mais explosivos e verticais. Nesse cenário, Endrick e Rayan poderiam funcionar como duas flechas rápidas, agressivas e letais, aproveitando os espaços criados pelo talento do craque.
Foi exatamente esse tipo de coragem que marcou os grandes momentos da história da Seleção Brasileira. A mesma ousadia que levou Feola a apostar em Pelé e Garrincha em 1958 pode ser o caminho para corrigir os erros atuais e recolocar o Brasil na rota da final da Copa do Mundo.
Que Neymar não atue mais como a flecha, e sim como o arco.
Que Neymar não atue mais como a flecha, e sim como o arco.
Conclusão
O debate sobre Carlo Ancelotti vai muito além dos resultados em campo. Ele expõe uma discussão antiga sobre identidade, valorização do futebol brasileiro e renovação da Seleção.
Enquanto a CBF e parte da mídia insistem em buscar soluções externas, a resposta pode estar mais próxima do que parece: na coragem de abrir espaço para os jovens, valorizar quem se destaca no país e resgatar a essência que transformou o Brasil na maior potência da história das Copas do Mundo.
O sonho do Hexa continua vivo. Mas sua realização depende menos da prancheta europeia e mais da confiança no talento brasileiro.
*André Louro é advogado, foi jogador de futebol de base e torcedor do bom futebol

