Torneio Heleno Nunes, o título nacional esquecido do Inter na década de 80

Por Tiago Cardoso
Foto: Arquivo

Ademir com a taça do Torneio Heleno Nunes

Em 1984, para preencher o calendário dos clubes que ficaram de fora da terceira fase do Campeonato Brasileiro, que era disputado no primeiro semestre, a Federação Paulista de Futebol resolveu criar um torneio, o qual levou o nome do general Heleno Nunes, presidente da Confederação Brasileira de Futebol, falecido no começo daquele ano. O torneio recebeu a chancela da entidade máxima do futebol tupiniquim e contou com gigantes como Atlético Mineiro, São Paulo, Palmeiras, Botafogo e Cruzeiro. Além do Guarani de Campinas, que seria vice-campeão nacional dois anos depois, e Bahia, que seria campeão brasileiro em 1988, justamente contra o Inter. Completavam o grupo de dez times os tradicionais Santa Cruz e Sport Recife, ambos de Pernambuco. Sport e Guarani vieram da segunda divisão daquele ano, onde já estavam eliminados, e participaram em razão de um pedido do presidente da CBF Giulite Coutinho.

Após uma reunião entre Giulite Coutinho, presidente da CBF, e Armando Ferrentini, vice-presidente da Federação Paulista de Futebol, acertou-se a realização do torneio. Na reunião, ficou definido que a CBF, além de oferecer um troféu ao campeão, também ajudaria nas passagens.

A tradicional revista Placar, à época, se referiu ao certame como “campeonato de consolação” aos desclassificados da Taça de Ouro (ou Copa Brasil), como era chamado o campeonato nacional naquele ano. Na verdade, o torneio corrigia um erro da CBF que organizara o campeonato de forma que possibilitou a queda precoce de clubes tradicionais do futebol nacional. A CBF, inclusive, teve que doar 60 milhões de cruzeiros para cada clube, pois a média de público no torneio era baixíssima, levando a pouca arrecadação com bilheteria. Aliás, a média só não foi pior, pois, na terceira rodada, Palmeiras e São Paulo levaram 55 mil pessoas para assistir o clássico no Pacaembu. Assim mesmo, somente 12 mil pessoas pagaram ingresso, uma vez que o restante se beneficiou de uma campanha da empresa Ray-O-Vac, a qual bancou o evento e liberou o ingresso a quem comparecesse no estádio com uma pilha de sua fabricação ou trajasse amarelo, a cor da embalagem do produto, o que lembrou, em razão do mar de camisas amarelas, os comícios da campanha ‘Diretas Já’, movimento político que lutava pela redemocratização do país, que naquele mês completava 20 anos de ditadura militar. Neste mesmo dia, no Beira Rio, o Inter vencia o Cruzeiro pelo placar de 1x0 diante de 5.178 pessoas, assumindo a liderança do torneio para não mais largar. O gol foi marcado pelo ponta Paulo Santos aos 37 minutos do segundo tempo. Jair, que voltava ao clube que o revelou após passagem histórica pelo Peñarol do Uruguai, onde foi campeão mundial, foi o melhor em campo.

No Campeonato Brasileiro, o Inter ficara na última colocação do grupo E, atrás de Portuguesa e Flamengo, classificados, e Brasil de Pelotas que também deu adeus ao certame.

No dia 15 de abril, num domingo, os dez times iniciaram a disputa, onde todos jogavam contra todos. O Inter estreou na Fonte Nova, em Salvador, onde perdeu de virada para o Bahia, naquela que seria sua única derrota no torneio. O Inter até saiu vencendo com gol de Dunga, logo no primeiro minuto. Mas Osni, que seria o artilheiro da competição com 5 gols, de pênalti empatou no começo do segundo tempo. Robson virou o jogo para o time baiano. O uruguaio Ruben Paz, craque colorado da época, foi expulso aos 37 minutos do segundo tempo, diante de um público de apenas 2.616 pessoas na imensidão das arquibancadas da Fonte Nova.

Na segunda rodada, com gol de Paulo Santos, o Inter bateu o Atlético em pleno Mineirão. O time mineiro, que contava com o zagueiro Luisinho, parte da lendária seleção Brasileira de 1982, era treinado por ninguém menos que Rubens Minelli, treinador que conduziu o Inter ao bicampeonato brasileiro em 1975/76. Na terceira rodada, para um público de apenas 1.164 pessoas no Beira Rio, o Inter venceu o fortíssimo São Paulo que contava com a histórica dupla de zaga Oscar e Daryo Pereira. O atacante Kita abriu o placar no primeiro minuto de jogo, e o lateral direito do São Paulo Gualberto marcou contra aos 7 minutos da segunda etapa, definindo o placar.

Após vitória sobre o Cruzeiro na quarta rodada, o Inter recebeu o Palmeiras no estádio Olímpico, em Cascavel, no Paraná, onde jogou para seu maior público no certame: 19.412 pessoas. Cascavel, onde residem muitos torcedores colorados, os quais podiam assistir o seu clube de coração na sua cidade, e o fato de o jogo ser no feriado de 1º de maio, impulsionou a presença do público. O Inter saiu na frente do marcador com Kita, aos 7 minutos do segundo tempo, vencendo o goleiro Leão, o qual seria o treinador do Colorado 15 anos depois no jogo que livraria o Inter do rebaixamento justamente contra o mesmo Palmeiras. O gol que livraria o Inter do rebaixamento no campeonato brasileiro em 1999 foi marcado por Dunga, o qual esteve em campo no jogo em Cascavel. O Palmeiras conseguiu empatar com o zagueiro Vagner aos 39 minutos do segundo tempo.

Na sexta rodada, o Inter foi a Campinas enfrentar o Guarani da revelação Neto, então prestes a completar 18 anos. O atacante Roberto do Guarani abriu o placar para o time da casa aos 40 minutos do primeiro tempo. No minuto seguinte, o meia Milton Cruz empatou para o Inter. Ademir, aos 32 minutos do segundo tempo, virou o placar para o time colorado. Mas, aos 35 minutos do segundo tempo, Roberto, novamente, empatou para o time campineiro. Na sétima rodada, o Inter foi ao estádio Marechal Hermes, no Rio de Janeiro, enfrentar o Botafogo, e novamente ficou no empate. Milton Cruz anotou para o Inter aos 14 minutos do segundo tempo. Mas Amarildo, que saíra do banco de reservas, empatou no fim do segundo tempo.

Após três empates seguidos, o Inter foi a Recife, onde enfrentou o Sport na Ilha do Retiro, goleando pelo placar de 4x0. Silvinho, Paulo Santos, Milton Cruz e Kita anotaram os gols colorados.

Numa época em que a vitória valia dois pontos, o Inter chegava a última rodada com 11 pontos. O Bahia, vice-líder, o outro time com chances de títulos, havia conquistado 9 pontos, mas tinha dois jogos para disputar. O time baiano precisava vencer o Cruzeiro para tentar superar o Inter no saldo de gols, caso o Inter vencesse o Santa Cruz. Entretanto, o Bahia, que estava vencendo até os 44 minutos do segundo, cedeu o empate ao Cruzeiro. Na partida entre Bahia e Cruzeiro, disputada na Fonte Nova, um fato inusitado ocorreu. Oito jogadores do Cruzeiro foram expulsos, tendo que o árbitro Paulo Celso Bandeira encerrar o jogo aos 45 minutos do segundo tempo, pois o time mineiro não contava com o número mínimo de jogadores -7 de acordo com a regra. Os jogadores cruzeirenses foram expulsas, pois estavam impedindo uma cobrança de pênalti do Bahia. Anteriormente, o jogador Palhinha do Cruzeiro já havia sido expulso.

Entretanto, mesmo que o Bahia vencesse, não poderia mais alcançar o Inter. Pois, no dia 17 de maio de 1984, numa quinta-feira, após vitória sofrida pelo placar de 2x1 sobre o Santa Cruz, o Inter se sagrou campeão do Torneio Heleno Nunes. Diante de 4.152 pessoas no Beira Rio, o Inter abriu o placar logo cedo, aos 7 minutos do primeiro tempo, com Jair. Porém, no começo do segundo tempo, logo aos 12 minutos, Cristóvão, que jogaria no rival Grêmio três anos depois, empatou. O gol do título só veio aos 41 minutos do segundo tempo, no apagar das luzes, com Paulo Santos, que anotou seu quarto gol na competição, dividindo a artilharia do time com Milton Cruz, que também marcou 4 gols. Ambos terminaram como vice-artilheiros do torneio, atrás apenas de Osni, do Bahia, que anotou um gol a mais.

No jogo do título, o Inter foi a campo com Gilmar; Alves, Aluísio, Mauro Galvão e André Luís; Dunga, Jair e Mário Sérgio; Paulo Santos, Milton Cruz e Silvinho. O treinador Otacílio Gonçalves, durante o jogo, colocou Beto no lugar de Aluísio e Sílvio no lugar de Milton Cruz.

Em 9 jogos na campanha do título, o Inter venceu 5 partidas, empatou 3 e perdeu apenas 1. Foram 15 gols marcados e 7 sofridos. Paulo Santos e Milton Cruz, vice-artilheiros do certame, marcaram 4 gols; Kita marcou 2 gols; e Dunga, Ademir, Kita, Ruben Paz e Silvinho contribuíram com um gol cada na campanha vitoriosa. Salienta-se que algumas fontes creditam o segundo gol do Inter na vitória contra o São Paulo, pela 3ª rodada do torneio, a Ruben Paz, outras atribuem gol contra ao lateral Gualberto do time paulista.

Dez dias depois do título do Inter, o Fluminense, num Maracanã com mais de 128 mil pessoas, conquistava o Campeonato Brasileiro, o campeonato dos que cruzaram a segunda fase e não precisaram organizar um torneio para preencher calendário.

Sem compromissos e com o time ingressando no estadual apenas na segunda fase, no mês de agosto, 11 jogadores do elenco colorado foram convocados para a seleção Brasileira Olímpica, onde levaram o Brasil pela primeira vez a uma final do torneio. A derrota para a França na final garantiu a medalha de prata à ‘SeleInter”, como ficou conhecida, que foi até a conquista do ouro em 2016, a melhor campanha da seleção Brasileira em Olimpíadas, junto às medalhas de prata de 1988 e 2012. Entretanto, antes de representar a seleção Brasileira com 11 jogadores nas Olimpíadas, o Inter excursionou ao Japão, e 13 dias após a conquista, fazia seu primeiro jogo na Copa Kirin, a qual conquistou após vencer o Toulouse da França nas semifinais e a seleção da Irlanda na final.


A taça do Torneio Heleno Nunes foi entregue apenas no dia 20 de agosto, três meses depois da conquista e nove dias após o retorno dos 11 jogadores do Inter que representaram a seleção Brasileira em Los Angeles, nas Olimpíadas, quando o Inter recebeu o Independiente da Argentina para um amistoso (2x2 o placar), que naquele ano havia faturado sua sétima e derradeira Libertadores da América sobre o rival do Inter, Grêmio, o que torna o clube de Avellaneda até hoje insuperável em títulos na maior competição do continente.

Apesar do fracasso de público do Torneio Heleno Nunes, espanta o fato de o Inter não pleitear junto à CBF o caráter oficial desta conquista esquecida do clube, que apesar de ser um torneio secundário, teve organização da Federação Paulista de Futebol e a “benção” da CBF, que ofereceu o troféu. O Internacional, que dominou o futebol nacional nos anos 1970 com três títulos do Campeonato Brasileiro, lembra muito das duas derrotas nas finais do certame nacional em 1987 e 1988, onde fora batido por Flamengo e Bahia, respectivamente, e esquece do torneio secundário, mas oficial e nacional conquistado em 1984.
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