O outro lado do Rei - O legado de Pelé fora dos gramados

Por Diely Espíndola
Foto: arquivo

Pelé, coroado em sua despedida da Seleção no Morumbi

Não há no Brasil quem não saiba quem é Pelé. Não é preciso contar sobre a Copa de 70, os mil gols. Ou ainda sobre o gol mais bonito de todos os tempos, aquele que foi de uma ponta a outra do gramado sem perder a bola, driblando quem aparecesse até atingir a meta.

De fato, não é preciso contar a trajetória de Pelé em campo, porque todo brasileiro já a conhece e se orgulha dela. Uma trajetória inquestionável, gloriosa e com lugar cativo nos mais belos registros da história. 

Mas pouco se fala do que Pelé fez fora das quatro linhas. O Rei do Futebol teve a gestão de sua carreira marcada por adversidades econômicas, uma ditadura que se apropriou dela, e uma série de decisões erradas que o fizeram, à duras penas, aprender que o dono de tamanho talento, deveria também ser dono de si.

A carreira de Pelé e a economia e politica do Brasil, andaram lado a lado desde muito cedo. Em 1958, um jovem Pelé de apenas 17 anos conquistava sua primeira Copa do Mundo, e também a primeira que o Brasil vencia. Concomitantemente, ia de vento em popa o governo de Juscelino Kubitscheck, que tinha como plano central levantar a economia do país em seu próprio modelo, sem influência dos modelos econômicos estrangeiros. Em 1961, o PIB brasileiro crescia enormes 11% ao ano. 

E como não poderia deixar de ser, o futebol era um dos maiores instrumentos de propagando desse milagre econômico. E Pelé, nossa maior joia, era o rosto do Brasil mundo afora. E o governo não queria perdê-la. Em 1960, Pelé foi declarado como patrimônio nacional não exportável. Ou seja, a carreira de Pelé estava destinada a nunca sair do solo nacional. 

Alguns anos depois, em 1970, o quadro econômico era outro. Com a inflação nas alturas característica da ditadura, o povo já não estava tão satisfeito com o governo. Muita pobreza, desemprego e pouquíssimo poder de compra estremeciam a autoridade do governo, que apelava cada vez mais para a violência para conter seus opositores. O AI-5 estava no auge, mas o medo não era o bastante para conter a população. Era preciso uma festa que juntasse o país em um uníssono, e nada mais efetivo que uma Copa do Mundo. A relação do Brasil com a Copa de 70 acabou se tornando um dos maiores exemplos do mundo de como o futebol pode ser um poderoso instrumento de propaganda de um governo.


A canção da seleção brasileira “pra frente, Brasil” se tornou também um dos mais conhecidos slogans da ditadura. 

Aquela Copa teve grandes nomes, um elenco de peso vindo especialmente de Botafogo e Santos. E um desses grandes nomes, era ele, Pelé. E obviamente, sua imagem foi usada como forma de promover o governo e a sensação de patriotismo. 

E foi assim, entre manipulações e exploração da sua imagem que Pelé se viu em uma das situações mais sérias de sua carreira e que quase o levou a falência. 

No Santos, Pelé era um dos jogadores mais bem pagos da época e acumulou uma pequena fortuna. Mas dela sobrou muito pouco; seu então empresário, Pepe Gordo, fez uso da confiança que Pelé lhe concedia e investiu o dinheiro do jogador em empresas, imóveis e outros investimentos furados que enquanto lhe enriqueciam, limavam as finanças de Pelé. E não seria o único susto financeiro que o jogador enfrentaria.

Em 1974, Pelé já estava aposentado. Seus conselheiros o convenceram a assinar um empréstimo milionário, que no fim das contas seria mais um rombo no que Pelé juntou ao longo de toda sua carreira. 

Com pouco dinheiro sobrando, dois grandes golpes sofridos e tendo apenas seu nome e talento como bem, Pelé voltaria aos gramados no ano seguinte numa tentativa de recuperar o dinheiro perdido. Finalmente embarcando para fora do Brasil, sua nova casa seria o New York Cosmos, time que lhe contratou para jogar a recém criada Liga de Futebol da América do Norte, num acordo de três temporadas por 7 milhões de dólares. E foi a partir daí que Pelé amadureceu como gestor de si mesmo, de outros negócios e construiu um legado importantíssimo para o futebol, além de tudo que já tinha feito dentro de campo. 

Pelé compreendeu o futebol como negócio, e como todo negócio, precisava ser gerido por quem entendesse do assunto e não por amigos e familiares. Assim, Pelé aprendeu que sua imagem valia muito, e virou garoto propaganda de diversas marcas globais que lhe renderam milhões de dólares. 

E, ganhando milhões, Pelé decidiu empreender. Em 1993 tentou comprar da CBF os direitos de transmissão do campeonato brasileiro. Para garantir a compra, ofereceu um milhão de dólares a mais do que seu concorrente. Mas não foi suficiente: um dos grandes chefes da CBF lhe cobrou propina de mais um milhão de dólares para que sua oferta fosse aceita. Pelé não topou. Perdeu a venda, mas levou o caso a público. Em entrevista para a revista Playboy, contou o caso que acabou gerando uma das maiores operações policiais sobre a CBF, que mudou a visão do mundo sobre a instituição, derrubou figurões e mudou o cenário do futebol nacional. Ricardo Teixeira, então dono do maior posto da CBF, virou alvo de todo tipo de cruzada anti corrupção no futebol brasileiro, e a coisa tomou proporções mundiais. Seu sogro era João Havelange, presidente da FIFA na ocasião. A partir daí, foi um dominó. Graças a denúncia de Pelé, as maiores instituições do futebol foram escancaradas e tiveram seus segredos mais sujos expostos. 

A figura de Pelé como um bastião da moral passou a ser incutida no imaginário popular, e além das portas que seu talento em campo lhe abriu, outras começaram a surgir fora dos gramados. Em 1994, o recém eleito presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, nomeava o jogador como ministro extraordinário dos esportes, primeiro negro a assumir o cargo.

Confira o vídeo do Brisa Esportiva

No poder, Pelé criou a lei que leva seu nome, sendo hoje uma das principais garantias dos direitos trabalhistas de jogadores. A medida tornou obrigação legal aquilo que 20 anos antes, Afonsinho lutou tanto para conseguir, e sem apoio: o direito ao passe livre. 

Com a Lei Pelé, os jogadores passaram a ter o direito legal de serem donos de suas carreiras, de escolherem para onde ir e de decidir sobre si mesmos.

Pelé tinha outros planos para o futebol, que à época não se concretizaram, mas que agora temos um pequeno vislumbre com a possibilidade das gestões S/A: a transformação dos times em clube-empresa, com gestão profissional e empresarial. Pelé não conseguiu, mas deixou um legado imenso. O futebol foi a força motriz de sua vida, e deixadas de lado todas as opiniões sobre sua vida pessoal, Pelé também fez muito por ele. Dentro de campo, fora de campo, na política. 

Um título de Rei mais do que merecido.
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