quarta-feira, 6 de maio de 2015

Beristain: o argentino que virou ídolo na Briosa

Beristain junto com a torcida rubro verde.
Era comum esta cena no fim dos jogos

Um atleta argentino que estava indo para a Europa e quando o navio fez escala no Porto de Santos resolveu se exercitar um pouco e acabou indo parar em Ulrico Mursa, o estádio da Portuguesa Santista. Foi assim que começou a curta, mas marcante história de Tomas Beristain (em alguns veículos grafado como Beristein) na Baixada, considerado por muitos o melhor jogador que vestiu a camisa da Briosa.

Beristain começou no futebol no Clube Atlético Platense e logo quando subiu para o time principal, em 1931, tornou-se ídolo da torcida. Suas jogadas rápidas e arranques pela ponta esquerda contagiavam os argentinos. Em 1934, Beristein ganhou sua única chance na Seleção Argentina. Ele entrou em campo no empate de 2 a 2 contra o Uruguai, em jogo realizado no Estádio Centenário, em Montevidéu.

Beristain com a camisa do Platense

No Platense, Beristain ficou até 1936, fazendo 180 jogos oficiais e marcando 61 gols. No ano seguinte, o jogador foi contratado pelo poderoso San Lorenzo, o atual campeão argentino. Para se ter uma ideia de sua fama, Beristain foi capa do El Gráfico, tradicional publicação argentina sobre futebol, algumas vezes. Foi no San Lorenzo onde ele ganhou o apelido de “El Rey del Taquito”. No clube, sua fama cresceu ainda mais e no final de 1939, alguns clubes europeus estavam atrás do jogador, que resolveu ir até o velho continente negociar um novo contrato.

No início de 1940, Beristain embarcou no Porto de Buenos Aires para a Europa, mas quis o destino que ele ficasse no meio do caminho. Quando o vapor fez escala em Santos, o jogador quis se exercitar para manter a forma. Um portuário indicou o estádio da Portuguesa Santista, já que a equipe principal do clube treinava naquele horário. E lá foi o argentino para a Avenida Pinheiro Machado.

Capa do El Gráfico

Beristain participou do treino junto com os outros atletas. Assistindo a atividade do clube estava Alberto de Carvalho, presidente do clube, que repentinamente começou a ficar maravilhado com a forma com que Beristain aplicava suas fintas, batia faltas e dominava completamente a pelota, deixando seus companheiros de treinamento atônitos com o malabarismo incrível praticado pelo famoso craque argentino.

Irreverente e desbocado, porém sincero e autêntico, Alberto de Carvalho chamou os diretores do clube e exclamou: “Contratem esse homem custe o que custar, pois é um verdadeiro e portentoso craque”.

Com a camisa do San Lorenzo

Como o navio saía no começo da noite, o clube tinha poucas horas para definir a contratação. A primeira providência da diretoria foi fazer com que Beristain perdesse o vapor, permanecendo em Santos. Para isso, a Portuguesa contou com o auxílio de outro atleta de seu elenco, o lateral-direito Baigorrya, também argentino. O conterrâneo contou como era a cidade e Beristain topou! Resolveu ser atleta da Portuguesa Santista.

Vale ressaltar que a Portuguesa Santista vinha de uma boa segunda metade da década de 30. Com um time que contou com craques como Tim e Argemiro, a equipe figurava entre os melhores de São Paulo e, quase sempre, ficava na frente dos rivais da cidade, Santos e Hespanha (atual Jabaquara).

Beristain é o último agachado

E a relação de adoração da torcida com Beristain começou. No jogo contra o grande Corinthians, em memorável tarde do argentino, a Briosa conseguiu vencer seu aguerrido adversário pelo significativo placar de 4 a 2, tendo Beristain marcado três gols, com mais um injustamente anulado pelo árbitro (consignado de forma magistral de bicicleta, - a mais de 25 metros), o que lhe valeu a maior consagração prestada a um craque no tradicional Estádio Ulrico Mursa.

Outro jogo marcante foi na vitória de 1 a 0 sobre o São Paulo. Beristain jogou tão bem que saiu carregado nas mãos dos torcedores, totalmente alucinados pela grande atuação do argentino. Mas não era só de elogios que vivia Beristain. Devido a atrasos, ele chegou a ser multado em um conto de réis.


Reportagem em A Tribuna sobre a multa de Beristain

E não era só no estádio em que ele era atração. O argentino chamava a atenção na praia. Residindo na pensão São João, localizada na Avenida Vicente de Carvalho (Praia do Boqueirão), quando fazia sua recreação na areia com uma pequena bola de borracha - "pelota de goma", - como ele dizia -, um elevado número de assistentes de ambos os sexos (mais feminino, é claro) ficava em torno dele, enquanto a turma ficava de boca aberta, pelo que ele conseguia fazer com tão pequena bola.

Quem o viu jogar, dizia que Beristein batia escanteios e pênaltis de letra. Dessa história veio a lenda de que ele chegou a marcar dois gols olímpicos em um jogo cobrando o "corner" de calcanhar. Infelizmente, esta linda história de Beristain em Santos foi curta. No início de 1941, ele voltou para a Argentina. Ele não renovou contrato porque foi chamado por seus familiares, que o queriam junto deles por razão da II Guerra Mundial.

Linha de ataque da Briosa em 1940:
Vega, Armandinho, Carabina, Guilherme e Beristain

A diretoria, tendo que aceder diante dos motivos expostos, ofereceu-lhe um jantar na noite de sua partida de regresso à Argentina. Beristein, durante o jantar, afirmou que jamais se esqueceria de Santos e que se porventura um dia voltasse a jogar no Brasil, poderíamos estar certos que somente o faria na Portuguesa. E para grande desolação da torcida rubro-verde, Beristein voltou para a sua terra natal. Em Buenos Aires, Beristain voltou para o San Lorenzo, jogou mais uma temporada e encerrou a carreira. Na equipe, contando as duas passagens, Beristein fez 52 jogos oficiais e marcou 16 gols.

O argentino marcou época em Santos. Quem viu disse para seus descendentes que Beristain foi o melhor jogador que vestiu a camisa da Briosa. E seu nome ficou marcado para sempre na história rubro verde.

* Deixar um agradecimento especial para o jornalista Walter Dias, a voz do sistema de som do Estádio Ulrico Mursa, que deu uma grande ajuda para este artigo.
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3 comentários:

  1. Muito bom Victor! Ótima história! Esse personagens merecem a lembrança eterna.

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  2. Parabens Victor bela materia,

    Ass. Ruas

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  3. Vitor
    Parabéns pela matéria
    Alcino Melo

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