quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Henfil e seus mascotes dos times cariocas

Por Lucas Paes

Os mascotes desenhados por Henfil na década de 1960

Henrique de Souza Filho, mais conhecido como Henfil, foi um dos mais famosos cartunistas brasileiros. O mineiro, que completaria 76 anos neste 5 de fevereiro, teve diversos trabalhos famosos, seja pelas criticas em forma de desenho, seja pelos seus personagens, como Fradim, Graúna, Zeferino, entre outros. Além destes todos, o trabalho dele que talvez atravessou mais gerações é relacionado ao futebol. Como parte de charges que fazia para o Jornal dos Sports, Henfil desenhou mascotes para clubes cariocas. 

O Rio de Janeiro vive um caso curioso com relação aos mascotes dos clubes, já que a grande maioria tem mais de um adotado pelas torcidas, ou mesmo mais de um desenhados por artistas diferentes (Ziraldo também já retratou mascotes de times brasileiros). Henfil é mais um que desenhou mascotes para os gigantes do Rio de Janeiro. Porém, alguns de seus desenhos acabaram criando conceitos que foram adotados pelos clubes e estão em evidência até hoje.

A Urubuzada é uma torcida organizada do Flamengo
(Foto: Reprodução/Youtube)

A primeira história interessante sobre os personagens de Henfil está relacionada com seu time de coração, o Flamengo. A história da adoção do Urubu pelo rubro-negro tem uma origem relativamente triste enraizada nos preconceitos da nossa sociedade. A torcida flamenguista, grande desde muito tempo, é enraizada em camadas populares e mais pobres do nosso país, obviamente não se limitando apenas à elas, mas tendo a fama de "favelados.". Nos anos 1960, os torcedores flamenguistas eram chamados de urubus pelos rivais, de maneira bastante pejorativa. Até que um dia essa história virou orgulho, contra o Botafogo.

Era o Maracanã, num dia 31 de maio de 1969 e jogavam Flamengo e Botafogo. Os botafoguenses levaram o apelido de urubus à um outro nivel naquele dia, soltando um desses com a bandeira do Flamengo dentro do campo do Maraca, em cena só possível nos idos tempos do futebol brasuca. Os torcedores do time da estrela solitária não contavam com o fato de que o rubro-negro quebraria um jejum vencedo aquele jogo por 2 a 1. Henfil, então, estampou a capa do Jornal dos Sports com um simpático desenho de um urubu, que aos poucos se tornou de vez o mascote flamenguista, substituindo o Marinheiro Popeye.

Parte dessa herança permanece até hoje vivíssima no Flamengo. O mascote do clube segue sendo oficialmente um urubu. O CT do clube se chama Ninho do Urubu. Além disso, a ave está presente em várias artes relacionadas ao clube, em várias bandeiras e virou até um nome de torcida, já que uma das organizadas do Flamengo se chama Urubuzada. O "preconceito" criou um orgulho e até hoje os flamenguistas entoam um orgulhoso "É festa na favela" quando vencem. Henfil começou algo que provavelmente durará para sempre.

Algumas festas da torcida do Fluminense com o Pó de Arroz

Mas, nem só de Flamengo viveu a fama do desenhista. Outro clube onde um desenho de Henfil tomou proporções grandes é o Vasco. O Cruzmaltino teve como primeiro mascote, não muito surpreendetemente, o almirante Vasco da Gama. Depois, vieram retratos dos comerciantes portugueses do Rio de Janeiro, com homens gorduchos de bigodes sendo desenhados como mascotes do Vasco. Henfil desenhou esse mesmo conceito, criando porém o apelido de Bacalhau, que pegou e é usado em coisas relacionadas ao Vasco até o dia de hoje. O "Bacalhau", porém, divide o posto de mascote com o Almirante, presente até hoje e até com o zumbi Eddie, do Iron Maiden, mas essa história fica para outro dia.

Outro que pegou fama, ainda que um pouco pejorativa para o torcedor do clube, foi o do Fluminense. O tricolor sempre foi conhecido como um clube com torcedores de elite e a origem do apelido Pó de Arroz retrata-se inclusive a situações racistas, já que se deu na provocação de torcedores a um jogador mulato do Flu que usava o pó de arroz, segundo o clube como um "pós-barba" e segundo os rivais obrigado a fazê-lo para esconder a cor da pele. De qualquer forma, Henfil apelidou o homem aristocrata e fidalgo que desenhou como mascote tricolor como Pó de Arroz. A torcida, muito antes do desenho de Henfil, diga-se, acabou também adotando o apelido e o Pó de Arroz usado na entrada em campo do Fluzão durante os anos gerou festas bem bonitas.

Mascotes como os do Botafogo e o do America (Cri Cri e Gato Pingado) acabaram não fazendo tanto sucesso quanto os outros, ainda que também fossem bem populares. O Botafogo é um clube que tem diversos mascotes relacionados a sua tradição, como o cachorro Biriba, o Manequinho, um garotinho urinando e até o Pato Donald. Já no caso do America, o desenho de Henfil teve origem na redução da torcida do alvirrubro, mas o mascote que realmente pegou para o Mecão é o diabo.


Os mascotes e as charges que Henfil fez com eles, porém, impulsionaram sua carreira e o ajudaram a conseguir diversos trabalhos. Na época da ditadura, o cartunista ficou conhecido pela sua atuação em movimentos sociais e políticos do Brasil. Uma de suas charges famosas no período foi um desenho enterrando diversos nomes famosos que andavam ao lado do regime militar, como Elis Regina, Roberto Carlos e Tarcísio Meira.

Acabou falecendo no auge da carreira, quando seus trabalhos eram publicados em diversas revistas, em 4 de janeiro 1988, devido a complicações da AIDS, que contraiu após uma transfusão de sangue, que fazia sempre pois era hemofílico. Henfil era irmão de Herbert de Souza, o Betinho, sociólogo que ficou muito conhecido nos anos 90 por idealizar uma campanha de combate à fome e faleceu da mesma forma que o irmão. Ao, fim ficou eterno o legado do trabalho do cartunista, que também passeou pelo futebol. 
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