segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Léa Campos - a primeira árbitra do futebol brasileiro

Léa Campos, a primeira árbitra brasileira

Em uma época onde, infelizmente, o futebol no Brasil era só para homem, inclusive determinado por Decreto Lei, Asaléa de Campos Micheli, a Léa Campos, quebrou barreiras tornando-se a primeira árbitra do esporte no País.

Léa nasceu em 1945, em Belo Horizonte, capital mineira, onde foi criada. Foi na escola secundária, que se apaixonou por futebol, atuando como centroavante de um time clandestino, pois no Brasil havia um Decreto Lei 3199, de 14 de abril de 1941, assinado pelo ex-Presidente Getúlio Vargas, onde no seu Artigo 54, proibia as mulheres de jogarem alguns esportes considerados apenas masculinos, entre eles o futebol.

Para realizar o sonho de trabalhar com futebol, Léa, que era formada em Educação Física na Universidade de Brasília, teve que enfrentar muitas leis e regras. A primeira era do então Presidente da CBD, e futuro Presidente da FIFA, João Havelange, que havia declarado que nenhuma mulher nunca se tornaria árbitra de futebol.

A árbitra junto com a equipe de São João da Boa Vista

Para fazer o curso de árbitro, contudo, Léa teve que ser esperta e driblar, além do Decreto Lei de 1945, outra regra, a Deliberação número 7, de 2 de agosto de 1965, assinada pelo General Eloy Massey Oliveira de Menezes, Presidente do Conselho Nacional de Desportos (CND), que nomeava as modalidades esportivas proibidas às mulheres, entre elas, o futebol. Essa deliberação, complementava o Artigo 54 do Decreto Lei 3199, de 14 de abril de 1941, que apontava incompatibilidade a “natureza feminina”.

O Decreto Lei e a Deliberação, porém, proibiam as mulheres apenas de jogarem, mas não faziam menção sobre arbitragem. Essa brecha foi o que garantiu a Léa o direito de participar do curso de árbitros em Minas Gerais, feito no Departamento de Futebol Amador da Federação Estadual, onde conseguiu se formar em 1967.

Mesmo dentro da lei, em entrevista para o quadro Baú do Esporte, do programa Esporte Espetacular, da Rede Globo, em 2007, Léa disse que não pode participar se quer da formatura do curso de árbitros, por represálias machistas.

Léa Campos encontrou muitas dificuldades para apitar no Brasil, sendo proibida de atuar em alguns estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, mas, encontrou apoio em outros lugares, como Rio Grande do Sul, além de seu próprio estado de origem, Minas Gerais.

Formada em jornalismo, Léa trabalhou na Rádio Mulher

Mas, a redenção veio em 1971, quando foi convidada pela FIFA para apitar um torneio mundial de futebol feminino amistoso, realizado pela entidade no México. Daí em diante não pararam de surgir jogos e oportunidades, e Léa ganhou muito destaque nos continentes americano e europeu.

Fora do futebol, Léa Campos também teve sucesso. Ela chegou a ser eleita Miss Belo Horizonte e Miss dos Ex-Combatentes. Também formada em jornalismo, Léa trabalhou em rádios mineiras e no departamento de relações públicas do Cruzeiro.

Aliás, foi no rádio em que ela também marcou época. Mesmo trabalhando como árbitra, Léa atuava como comentarista esportiva voltada para o futebol em 1972, na Rádio Mulher, em São Paulo. A estação era estação voltada ao mundo feminino, e batia de frente com ditadura militar do país.

Léa Campos atualmente

A carreira de Léa Campos nos gramados durou pouco tempo, contudo. Em 1974, o brasileiro João Havelange, um dos primeiros a se opor as mulheres como árbitras de futebol, assumiu a presidência da FIFA. Curiosamente, no mesmo ano, Léa sofreu um acidente de ônibus numa companhia que muitos dizem pertencer à Havelange, a Viação Cometa. O acidente deixou Léa na cadeiras de rodas por dois anos. E a obrigou a abandonar o futebol. Léa chegou a levar o caso a justiça na época do acidente, mas perdeu nos tribunais quando as evidências sumiram misteriosamente.

Em 1976, Léa se mudou para os Estados Unidos para fazer tratamento com o médico brasileiro João Vicente Alves. Apesar das poucas chances, ela conseguiu se recuperar e continuou morando nos Estados Unidos. Chegou a fazer boxe e, até hoje, trabalha com esportes.
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