Julio Casares renuncia à presidência do São Paulo após afastamento e crise política

Foto: divulgação / São Paulo FC

Casares deixa o cargo

Cinco dias após ser afastado da presidência do São Paulo pelo Conselho Deliberativo, Julio Casares oficializou nesta quarta-feira (21) sua renúncia ao cargo. A decisão foi comunicada pelo próprio dirigente por meio de uma carta aberta publicada nas redes sociais.

No texto, Casares afirmou que a renúncia tem como objetivo preservar sua saúde e proteger a família, ao mesmo tempo em que fez duras críticas ao ambiente político do clube. “Renuncio, sim, ao ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos”, escreveu. O ex-mandatário destacou ainda que jamais renunciará ao São Paulo, clube que definiu como “amor de infância e da vida”.

Com a renúncia, Casares evita um eventual impeachment definitivo e, consequentemente, a perda de seus direitos políticos, que o impediria de exercer qualquer função no Tricolor pelos próximos dez anos. Na última sexta-feira, o Conselho Deliberativo havia aprovado o impeachment do presidente, afastando-o de forma imediata até que uma nova votação entre os sócios fosse realizada. Com isso, o vice-presidente Harry Massis Júnior, no cargo desde 2021, assumiu interinamente o comando do clube.

A saída ocorre em meio a investigações que colocaram o nome de Casares no centro de uma grave crise institucional. Relatórios do Coaf apontam um suposto recebimento de cerca de R$ 1,5 milhão em depósitos em dinheiro, entre janeiro de 2023 e maio de 2025. Segundo a apuração, os valores representariam quase metade da renda do dirigente no período, enquanto os salários pagos pelo São Paulo corresponderiam a pouco menos de 20% da movimentação financeira.

Os documentos indicam ainda a realização de diversos depósitos fracionados em um mesmo dia, prática conhecida como “smurfing”, utilizada para tentar burlar mecanismos de controle financeiro.

Outro episódio que abalou os bastidores do clube foi a denúncia de um esquema de venda irregular de ingressos de camarote no Morumbis. De acordo com gravações divulgadas pelo ge, o diretor adjunto da base, Douglas Schwartzmann, e a diretora feminina, cultural e de eventos, Mara Casares — ex-esposa de Julio — teriam comercializado ingressos de forma irregular para um camarote durante um show da cantora Shakira, em fevereiro de 2025. O caso é alvo de um processo que tramita na Justiça de São Paulo.

Após a repercussão das denúncias, Mara Casares se afastou das atividades e protocolou um documento em cartório isentando Julio Casares de envolvimento direto no episódio. Já a defesa do ex-presidente, por meio de nota, afirmou que todas as movimentações financeiras possuem origem lícita e compatível com sua trajetória profissional, destacando sua atuação anterior em cargos de alta direção na iniciativa privada.

Com a renúncia de Julio Casares, o São Paulo entra em um novo capítulo de instabilidade política, enquanto aguarda definições internas que podem redesenhar o comando do clube e influenciar diretamente os rumos administrativos e esportivos do Tricolor.


Veja a carta aberta de Julio Casares:
Carta à comunidade são-paulina

Uma mensagem aos torcedores, conselheiros e sócios

Ao longo da minha trajetória à frente da presidência do São Paulo Futebol Clube, atuei com absoluta seriedade, firmeza, responsabilidade e compromisso com a defesa da instituição, sempre orientado pelo respeito à sua história, à sua grandeza e à sua torcida.

Nos últimos meses, o clube passou a viver um ambiente de intensa instabilidade, marcado por ataques reiterados, narrativas distorcidas e pressões externas que extrapolaram o debate institucional legítimo.

O que se iniciou como versões frágeis e boatos foi sento reiteradamente reproduzido, amplificado e, gradativamente, tratado como verdade, mesmo sem a apresentação de fundamentos consistentes ou provas robustas.

Formou-se, assim, um contexto de grave contaminação no debate, no qual ilações passaram a ocupar o lugar dos fatos e suposições foram apresentadas como certezas, em um processo que, aos poucos, transformou verões construídas em verdades aparentes.

Não afirmo, neste momento, autoria, métodos ou responsabilidades específicas, até porque tais questões devem ser devidamente apuradas pelos órgãos competentes. Contudo, é impossível ignorar que houve articulações de bastidores, distorções deliberadas e uma trama política ardilosa, marcada por interesses, traições institucionais e expedientes incompatíveis com a história e os valores do São Paulo Futebol Clube - fatos que o tempo e a história haverão de registrar.

Esse cenário afetou profundamente a governança do clube e, de forma absolutamente inaceitável, ultrapassou os limites da esfera institucional, alcançando minha família e minha vida pessoal.

Não renunciei anteriormente porque entendi ser meu dever exercer, até o fim, o direito à ampla defesa e ao contraditório.

Enfrentei esse processo de maneira direta, presencial e com dignidade, mesmo diante de um ambiente já contaminado por narrativas previamente construídas.

Na prática, a manifestação realizada na tribuna foi o único espaço efetivo que me foi concedido para apresentar minha defesa, em um rito sumário que, ao meu juízo, restringiu a necessária produção de provas e o pleno esclarecimento dos fatos.

A decisão tomada por este Conselho encerra um processo de natureza política.

Respeito essa decisão, ainda que dela discorde, e reafirmo, com absoluta convicção, que jamais pratiquei qualquer irregularidade.

Minha renúncia não representa confissão, reconhecimento de culpa ou validação das acusações que me foram dirigidas.

Diante da continuidade desse ambiente, da necessidade de preservar minha saída e, sobretudo, de proteger minha família de ataques e ameaças gravíssimas, bem como para evitar que essa disputa política continua a prejudicar o time de futebol e o ambiente esportivo do clube, apresento minha renúncia ao cargo de presidente, com efeito a partir desta data, antecipando, inclusive, o exercício do direito estatutário de aguardar a Assembleia Geral.

Faço questão de registrar que deixo um clube esportivamente estruturado, com um time competitivo, que voltou a disputar decisões, chegou a finais e conquistou títulos de grande relevância. Destaco, de forma especial, a conquista da Copa do Brasil 2023, título inédito e histórico, que simboliza o trabalho sério, responsável e comprometido desenvolvido ao longo da gestão.

Esse desempenho é fruto do esforço conjunto de atletas, comissão técnica e profissionais do clube, aos quais manifesto meu respeito e confiança.


Tenho absoluta convicção de que seguirão honrando essa camisa e lutando por títulos, com o apoio da torcida e da instituição. Meu afastamento também tem como objetivo permitir que eventuais apurações ocorram de forma ampla, técnica e isenta, sem qualquer alegações ou interferências, para que a verdade possa ser plenamente buscada e alcançada.

Reitero, por fim, minha certeza de que o São Paulo Futebol Clube é maior do que qualquer cargo, circunstância ou narrativa construída.

Renuncio à presidência para preservar minha saúde e proteger minha família. Ao São Paulo Futebol Clube, amor de infância e da minha vida, jamais renunciarei. Renuncio, sim, ao ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos e tentaram manchar trajetórias, biografias e a própria história do clube.

Despeço-me com respeito, gratidão e amor permanente por essa instituição, que sempre honrarei.

Julio Casares
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