quinta-feira, 14 de março de 2019

Coutinho e seus 'causos' como treinador do Jabaquara

Por Victor de Andrade
Foto: Tática Assessoria

Coutinho foi o treinador do Jabaquara no ano de 2005

Na última segunda-feira, dia 11, faleceu um dos maiores centroavantes da história: Coutinho. Dono de uma precisão invejável, ele marcou época e fez parte do grande Santos dos anos 60, que conquistou o mundo, e ficou conhecido como o maior parceiro de Pelé. Após encerrar a carreira de jogador, o Gênio da Pequena Área foi treinador de pouco sucesso e seu último clube foi o Jabaquara, onde em uma mistura de muito conhecimento, superstições e questionamentos, a passagem dele pelo Leão da Caneleira, em 2005, rendeu muitos 'causos'.

Eu, atualmente com 40 anos, não pude acompanhar Coutinho como jogador, mas conheço bem a sua história. As primeiras memórias que tenho deste grande cara trabalhando com o futebol foi assumindo a equipe profissional do Santos FC interinamente, sendo o treinador campeão paulista sub-17 de 1994 pelo Peixe e também dirigindo outras equipes pequenas. Porém, em 2005, tendo acabado de me formar como jornalista, pude acompanhar de perto aquele time do Jabaquara.

O Rubro Amarelo disputava o Campeonato Paulista da Série B, o que equivalia à quarta divisão. Era o primeiro ano da junção das Séries B1 e B2 (a B3 já havia sido extinta ao final de 2003) e o Jabaquara, que tinha uma parceria com o Litoral FC, de Pelé, resolveu contratar Coutinho como treinador, após dois anos com Paulo Robson à frente da equipe. O grande mito do futebol, a partir dali, começou a colecionar algumas histórias pitorescas.

"Coloca o Barueri!"

Apesar do bom início, qualquer queda de rendimento dentro de campo fazia com que as críticas das arquibancadas ecoassem. Os abnegados torcedores do Jabaquara não aceitavam a equipe naquela situação e poderia ser qualquer um que não seria poupado. Isto até causava certos bate-bocas, já que alguns pediam para respeitar a história de Coutinho, o que era repreendido fortemente por outros, já que a crítica era para ele como treinador e não por sua história. Porém, apesar disso, Coutinho era de escutar a voz das arquibancadas, como na história que vou descrever abaixo.

O Jabaquara enfrentava o Palestra no 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, e perdia por 3 a 2. O treinador do Leão só tinha feito duas substituições e a partida se encaminhava para o final, quando uma voz ecoava da arquibancada: "Coutinho, coloca o Barueri!". Era Emerson Ortunho, dos Jogos Perdidos, fervoroso torcedor do Jabuca. E ele insistia, pedindo para utilizar o jogador que estava no banco de reservas.

Quando Emerson já estava perdendo a voz, Coutinho levantou do banco de reservas, olhou para ele e o torcedor aproveitou e mandou: "coloca o Barueri. Ele é Bom!". O treinador pegou de surpresa todos e respondeu: "é mesmo! O Barueri!". Coutinho tratou de chamar o jogador solicitado, ele entrou na partida, mas o Jabaquara não reverteu a situação: 3 a 2 para o Palestra.

O uniforme está dando sorte

Como falei acima, apesar desta derrota para o Palestra, fora de casa, o Jabaquara vinha bem na competição e brigava com o São Bernardo FC pela ponta da tabela. O Leão da Caneleira vinha usando a sua tradicional camisa amarela nos jogos em que atuava no Estádio Espanha. Porém, a diretoria do clube mandou confeccionar lindos uniformes, com a camisa sendo listrada em amarelo e vermelho, como na época em que o clube chamava Hespanha.

O Jabaquara iria estrear o uniforme novo e o roupeiro do clube ajeitou todas as camisas no vestiário, como de praxe. Estava tudo certo para a nova camisa ir a campo, mas só esqueceram de avisar ao Coutinho. Quando ele, com sua indefectível toalha de rosto em um dos ombros, entrou no vestiário e viu as camisas novas, mandou: "o que é isto? Estamos bem na competição, a camisa amarela está dando sorte. Não vamos trocar!". E lá foi o roupeiro ter que recolher as camisas novas e trazer de volta as amarelas.

"Se a bola passar da linha já é gol"

Todos os jogadores que trabalharam com Coutinho são unânimes em dizer que ele tentava passar tudo aquilo que aprendeu jogando para eles. Era contando o que ele passou nos gramados ou explicando alguns lances nos treinamentos. Quem contou esta história foi o meia Dedé, que depois virou treinador do Real Cubatense, quando trabalhamos juntos.

O Jabaquara tinha um centroavante, André, que era goleador (brigou pela artilharia do certame, inclusive), mas que em muitos momentos era afobado na área e sempre batia no gol com chutes fortes, sendo que alguns acabavam não indo no alvo. Coutinho, que era conhecido por sua grande precisão nos chutes, que muitas vezes preferia colocar do que chutar forte, disse:

"Na área, muitas vezes, não é necessário chutar forte. A precisão é muito melhor que a força. Você não precisa estufar as redes. Se a bola passar da linha já é gol!". Isto acabou se tornando um ensinamento que o grande Coutinho deixou para todos daquele elenco.

Após ter sido o segundo colocado do Grupo 4 do Campeonato Paulista da Série B de 2005, atrás do São Bernardo FC, o Jabaquara acabou sendo eliminado na segunda fase da competição, onde esteve no Grupo 6, ao lado de São Carlos, Palmeirinha e Campinas.
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