segunda-feira, 9 de abril de 2018

O silêncio reinou no Allianz Parque com Corinthians campeão e torcida única

Por Lucas Paes

Jogadores do Corinthians comemoraram o título, mas sem sua fanática torcida
(foto: divulgação FPF)

O Derby entre Corinthians e Palmeiras na final do Paulistão 2018 já está na história do futebol brasileiro. O Corinthians, gigante que é, venceu e levou o troféu nos pênaltis, silenciando um estádio cem por cento palmeirense e escrevendo uma história dos quais seus torcedores vão se orgulhar. Mas o título teve uma nota triste, outra situação histórica que deveria dar fim a uma das maiores vergonhas que já se viu no futebol brasileiro.

Em 2016, em vista de uma briga com morte jogo envolvendo os mesmos rivais de hoje, o pedido veio de Paulo Castilho, exímio defensor da extinção das torcidas organizadas. Alexandre de Moraes, que fez um circo midiático para colher facas de cozinha e dinheiro da sede da Gaviões da Fiel, que depois foram divulgadas como armas. Também houveram prisões, estas talvez a única parte legislativamente correta da situação. A ação ocorreu pouco depois de um protesto dos Gaviões com várias cobranças, incluindo as acusações a Fernando Capez, envolvido em investigações devido a um escândalo de corrupção envolvendo as merendas de escolas públicas de São Paulo. Um cidadão que se promoveu na política com medidas midiáticas em cima das torcidas organizadas, medidas que, como os clássicos com torcida única, não resolveram nada.

Entre as medidas adotadas após a briga em 2016, houve a proibição de faixas, baterias e camisas referentes as torcidas organizadas dos quatro grandes de São Paulo, proibições impostas depois ao estado inteiro. A medida acabou “revogada” ano passado, porém as camisas continuam proibidas. A ideia seria limitar a principal renda das torcidas organizadas, a venda de artigos, porém elas se adaptaram e montaram camisas sem as simbologias das instituições. No fim da conta, a medida acabou prejudicando apenas torcidas organizadas de clubes pequenos, pouco envolvidas na violência das torcidas.

É impossível passar um “pano” para as torcidas organizadas, que estão sim envolvidas em episódios de violência com frequência alarmante. A história conta isso e desde que as armas de fogo entraram no cenário o número de mortes cresceu vertiginosamente. Em 2013, por exemplo, um torcedor foi baleado num confronto entre são paulinos e palmeirenses. Apenas um entre diversos episódios. A continuidade da frequência mostra que as medidas punitivas em cima do “CNPJ” não têm dado certo.

Em 1995, uma briga história entre alviverdes e tricolores, num jogo da Copa São Paulo, numa situação bizarra onde os brigões tiveram acessos a matérias da obra do Tobogã do Pacaembu que estavam “dando sopa”, ocasionando uma morte, gerou a proibição das bandeiras de mastro no estado. Depois de 23 anos, São Paulo é o único estado que ainda proíbe o artigo. Geraldo Alckimin vetou a volta dos mastros em 2013. Já na época, as torcidas foram “proibidas”. A medida, porém, não acarretou em nenhuma melhora na violência nos estádios, muito pelo contrário.

Porém, uma das poucas experiências de algum sucesso veio pouco depois disso. Os diretores de torcida passaram a ser envolvidos na segurança dos clássicos e tinham até um credenciamento para discutir com PMs e até com o Ministério Público a questão de segurança. A medida não gerou resultados enormes imediatos, mas a violência diminuiu. Porém, algo que daria certo a longo prazo não dá popularidade, algo chave nesta questão toda no estado.

Fernando Capez, Paulo Castilho e Alexandre de Moraes cresceram em popularidade com a perseguição as torcidas. As medidas punitivas, que não resolvem muita coisa, ressoam no povão e na mídia, trazendo uma popularidade que gera até chances em cargos políticos, como visto com Capez. Qualquer pessoa que consiga pensar a questão um pouco mais a fundo sabe que a redução da violência só virá com medidas que gerarão efeitos a longo prazo.

Confusões em 'caça aos corintianos infiltrados' aconteceram

O futebol também não pode ser distinguido da sociedade em que está envolvido. O Brasil, como um todo, é um país violento e as brigas de torcidas são reflexos disso. É impossível que se queira diminuir o plano menor sem pensar no todo. A impunidade, comum nas brigas de torcedores, é comum na sociedade como um todo. A ineficiência das forças de segurança contra a violência no todo refletem no futebol. A associação não pode ser desfeita e pouca coisa melhorará se só se pensar no futebol.

Voltando ao assunto do inicio do post, toda essa “viagem no tempo” foi feita para entender porque a medida torcida única é apenas um circo. Recentemente, vazou a notícia que veio ordem do crime organizado para que a violência entre as torcidas paulistas parasse. Os casos diminuíram vertiginosamente depois disso. Porém, o silêncio na recente morte de um corintiano num clássico entre Santos e Corinthians com o público totalmente santista mostra como a ideia “torcida única nos clássicos” no fim das contas não resolveu nada, como sempre.

E então chegamos ao começo da noite deste domingo. O Corinthians foi bi-campeão estadual, diante de um Allianz Parque totalmente palmeirense. Levantou a taça para nenhum torcedor alvinegro, numa cena que envergonharia figuras como Vicente Matheus, que, folclore a parte, era ferrenho defensor da relação do Corinthians com seu povo. O silêncio foi ensurdecedor no ouvido do amante de futebol, que vê uma cena historicamente vergonhosa diante dos seus olhos.

A sequência de fatos durante a semana mostra o tamanho da incompetência do poder público. O Corinthians quase foi impedido de fazer um treino aberto para seu torcedor, tendo que mudar o horário da atividade para poder receber o apoio de sua torcida, que não existiu hoje por motivos óbvios. O Palmeiras também sofreu com as autoridades, pois os treinos abertos quase foram ambos impedidos.

A Globo, acusada com certa razão de favorecer o Corinthians com relação a escolha das transmissões de jogos, cortou a entrega da taça, talvez querendo evitar mostrar uma vergonha que, de certa forma, ela apoiou. E então a taça foi ao ar sem o grito de campeão da torcida corintiana, sem o apoio da fiel. A cena, emblemática, deveria servir para que a medida fosse enterrada de vez. É difícil, porém, pensar que isso vai acontecer, num estado onde as maiores autoridades se preocupam mais com a popularidade que uma medida punitiva vai trazer do que com melhorar de fato a segurança nos estádios paulistas.
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