sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

1980 – O Campeonato Paranaense que nunca acabou

Por Diely Espíndola

O jogo decisivo entre Colorado e Cascavel não chegou ao fim

Ao longo desses mais de 100 anos de campeonatos estaduais sendo disputados, não foram raras as situações em que a competição foi marcada por polêmicas, peculiaridades e títulos divididos. Um exemplo disso foi o Campeonato Carioca de 1907. Botafogo e Fluminense terminaram a competição empatados em quantidade de pontos, e na época não havia critério de desempate. O Botafogo solicitou um jogo para resolver a questão, mas o time das Laranjeiras não aceitou o acordo, e se declarou campeão por maior saldo de gols. A Liga Metropolitana de Football no entanto, não declarou campeão nenhum dos dois times. O impasse só foi resolvido 90 anos depois, quando a FFERJ decidiu que ambos os times seriam registrados como os campeões daquele ano, o que alterou o hino do Botafogo, passando de “campeão desde 1910” para “campeão desde 1907”.

O caso, apesar de polêmico, foi só um entre tantos outros. E um desses tantos, que hoje abordaremos aqui, é o caso do campeonato paranaense de 1980. A final envolveu simulação, cai-cai, tapetão, e o campeão acabou sendo definido não nos 90 minutos, dentro das quatro linhas, mas no tribunal, onde o grande craque do título foi o martelo do juiz.

Torcida do Colorado comemorou mesmo com o time não fazendo os cinco gols

O quadrangular final era liderado pelo Cascavel, seguido por Colorado Esporte Clube, Londrina e Pinheiros, estes dois últimos não tendo chance de título. Cascavel e Colorado fariam a partida decisiva, e para que o Colorado superasse seu adversário em saldo de gols, e se sagrasse campeão, precisava vencer por 5 gols de diferença.

Já aos 5 minutos de jogo, o Colorado abriu o placar, com gol de Jorge Nobre. No entanto, o lance envolveu um choque entre o jogador e o goleiro Zico, defensor da meta do Cascavel, o que até hoje faz os torcedores do time da Cobra alegarem irregularidade no lance. Porém o gol foi validado. No calor das reclamações, o Cascavel sofreu sua primeira perda naquela partida, com a expulsão do jogador Marcos. 

TJD decidiu dividir a taça

Aos 23 minutos do primeiro tempo, é marcado o segundo gol do Colorado, novamente pelos pés de Jorge Nobre. Era o começo da tensão para o Cascavel, que temia ver sua vantagem ser perdida para o time da capital. Aos 38 minutos, o técnico Borba Filho, comandante da equipe cascavelense, faz sua primeira substituição, tirando Paulinho e campo, e colocando Maurinho.

O jogador recém colocado em campo, começa poucos minutos depois uma confusão com seu treinador, que resulta na expulsão de ambos. Ainda hoje, há quem diga que Maurinho começou a briga na tentativa de causar sua expulsão, e iniciar uma série de simulações que resultariam no encerramento da partida antes do tempo regulamentar, por faltarem jogadores em campo, como veremos mais à frente.

O Cascavel saiu como campeão na Revista Placar

Ao fim do primeiro tempo, Sérgio Ramos, ponta esquerda do Cascavel, é substituído por Dudu, esgotando as então duas substituições permitidas pelo regulamento. Dudu no entanto, não voltou para o segundo tempo. Juntamente com o companheiro de equipe Nelo, ambos vetados pelo departamento médico, que alegou lesões. O Cascavel teria então 7 jogadores em campo, mínimo permitido para que a partida tivesse continuidade. E assim se deu.

Até que o goleiro Zico, ainda no primeiro lance do segundo tempo, cai e alega mais uma contusão, sendo o quinto jogador da equipe a deixar o gramado, obrigando o árbitro a encerrar a partida. E a partir daí começou o impasse.

O Colorado saiu como "Orgulho do Paraná"

Torcedores, jogadores e equipe técnica do Colorado, consideraram o clube campeão, comemorando o título sub júdice. Porém a equipe do Cascavel também comemorava o título, já que a partida terminou oficialmente em 2 a 0, placar que mantinha a liderança do Cascavel.

A situação ficou indefinida por 12 dias, até que a Federação Paranaense de Futebol declarou ambos os times campeões, dando ao Cascavel seu primeiro título, e único do Colorado. A decisão no entanto não agradou a nenhum dos dois clubes, mas foi mantida.

Reportagem sobre o jogo decisivo

O fato polêmico foi inédito na historia do futebol paranaense, e não se repetiu. Um título decidido no tribunal, e que para muitos, premiou um clube que supostamente desistiu da partida. Perdeu a exclusividade da vitória o Colorado, e perdeu o futebol paranaense.

As duas equipes não existem mais. O Colorado fundiu-se com o Pinheiros em 1989, criando o Paraná Clube, a atual terceira força do estado. Já o Cascavel EC teve problemas financeiros e em 2001 fundiu-se com o Cascavel SA e o Sorec, formando o Cascavel Clube Recreativo.
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2 comentários:

  1. No Carioca de 1907 havia cláusula de desempate, o resto foram brigas e recursos infinitos.

    Texto extraído do livro História do Futebol no Brasil, de Tomás Mazzoni, reproduzindo opinião do jornal A Notícia, de 31 de outubro de 1907:

    “ Portanto, Botafogo e Fluminense não chegaram a nenhum acordo acerca do título de 1907, e com isso nunca o campeonato carioca teve o campeão absoluto oficial daquele ano. A Liga teve que paralisar, impotente para impor sua autoridade e seus regulamentos. Botafogo e Fluminense se julgaram ambos campeões de 1907.
    Vejamos como a imprensa do Rio comentava então o sucedido: Avoluma-se agora a ideia que há tempos se vem desenvolvendo de forçar-se o pronunciamento da Liga Metropolitana do Rio de Janeiro, no sentido de ser revogada a sua deliberação, ordenando que os desempates sejam decididos por média de tentos. Vamos fazer uma ponderação que se nos afigura por demais justa, chamando para ela a atenção da Liga Metropolitana e principalmente ao seu presidente sr. Tatan, "sportman" distinto e correto, respeitável pelos seus dotes morais.

    Quando se jogou o primeiro prelio a Liga sabiamente, deliberou que, nos casos de empate, deveria vigorar o sistema de media de tentos para dar ganho de causa. Todos os clubes entraram, pois, conscientes desse processo adotado e, assim, o acertaram.

    Mas, não é nobre e nem siquer digno de atenção qualquer procedimento contrário a esta deliberação. Admitindo, para argumentar, que a Liga mande realizar o prélio entre o Fluminense e a A.A. Internacional, ficam em condições de aparente empate no campeonato o referido Fluminense e o Botafogo, sendo, no entanto, vencedor o Fluminense, pela sua superioridade em tentus pró sobre o seu adversário. Si a Liga desastradamente reformar a sua deliberação tomada antes do início do campeonato, e mandar a campo os dois clubes, acontecerá o seguinte no próximo encontro: o Fluminense nada tem a ganhar e só apenas a perder, porquanto ganhando, apenas confirmará uma vitória obtida e perdendo mudará em derrota uma vitória sua, e o Botafogo só terá que ganhar e nada a perder, porquanto ganhando, converterá uma derrota em vitória, e perdendo, ficará no que dantes era, o clube já derrotado pela média de tentos.

    A Liga, de certo, agirá com a sua costumeira correção, certo que reformando esquisitamente a sua primeira deliberação, não ofenderá tanto o Fluminense, quanto a representação de seus próprios membros.

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  2. O dito jornal está disponível on line: Coluna Sport - N. M. (conforme abreviação na página) (31 de outubro de 1907). «Uma idéa infeliz (edição eletrônica 00259)». Jornal "A Notícia": http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=830380&pagfis=14324

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