quarta-feira, 20 de abril de 2016

Juventus 92 anos - De concreto, suor e lagrimas

Por Ricardo Russini Pucci*

Estádio Conde Rodolfo Crespi

Não nos matem, por favor!

Existe em um lugar, em uma rua, um time, num bairro, onde uma gente se toma à demência de se desligar totalmente aos sábados e domingos de sua vida, rotina ou deveres. Como seres manipulados por uma “forza” maior, somos praticamente expulsos de nossas casas horas antes da batalha por algo que ainda nenhum metido a físico consegue explicar. Como se, nessa hora, nossa mente é reprogramada e tudo aquilo que estamos fazendo ou tínhamos que fazer é apagado momentaneamente de nossas cabeças. Nada é mais importante. Como um papel flutuando ao vento, somos arrastados para a Mooca. Ali, entramos em uma espécie de portal, um mundo dentro de outro. O nome desse portal? Para alguém, é apenas uma rua, mas para mim é a Rua Javari.

Não é como entrar numa rua qualquer. O coliseu da Mooca abre suas portas e seus dementes começam a fazer loucuras, travessuras, com muita batalha e sangue, suor e lágrimas. Estamos dispostos a batalhar até que a última gota de sangue seque em nossas veias, e a ultima gota de lágrima escorra de nossos olhos. Mas, enquanto houver luta, defenderemos o Moleque até o fim. Num lugar onde se matam leões e tigres a pedradas, tudo que você ouvir dizer que é impossível de acontecer, acontece. Aqui cegos enxergam e surdos ouvem. Aqui mudos berram, e o pequeno é mais forte que o grande.

O time campeão da Taça de Prata de 1983

Não é um lugar qualquer. Um alambrado é pouco para nos separar de nossos guerreiros, estamos jogando junto. Fazemos a diferença porque fomos escolhidos, nosso grito vira ordem, nosso sussurro se torna um grito infernal nos ouvidos dos guerreiros, e nosso grito arrebenta o inimigo na batalha campal. É duro, não é fácil. Não existe nada, absolutamente nada que separe esses loucos de sua loucura. Esse lugar é mágico, é único. Esse lugar não foi feito de cimento, água e areia. Demos a vida por esse lugar. Como um milagre, nossa pele revestiu nossos ossos, e esmagados viraram cimento para construir esse lugar. Tudo isso misturado com sangue e lágrimas no lugar de água. Lá atrás, na década de 1930, eu morria por esse lugar. Esse lugar foi construído com meu corpo. Eu sou o chão, o muro, o teto. Eu faço parte desse lugar, e ninguém tira isso de mim, porque esse lugar é meu, é nosso. E como todos os operários que deram seu corpo, seu sangue, sua vida, foi prometido a nós que, anos depois, nossas almas (que não são destrutíveis) iriam retornar ao novo corpo e iríamos viver conectados ao nosso lugar. E assim somos, retornamos ao nosso antigo corpo. Nossa mente está ligada até hoje com aquilo que aconteceu em 1930.

Nesse lugar eu morri, por esse lugar eu nasci, e por esse lugar eu batalharei de novo. Morrerei de novo se preciso quantas vezes forem necessárias para não perder esse lugar. Esperei anos para renascer, para voltar ali, onde eu morri há mais de setenta anos. Por isso choro, e peço, é meu direito viver quieto aqui, não incomodo ninguém, só quero desfrutar da vida que perdi lá atrás, talvez perdendo essa só pra poder estar conectado com aquilo que deixei. Não destruam o sangue, as lágrimas, o suor e os ossos presentes naquele lugar, poucos hoje em dia morreriam, teriam suas almas atormentados por décadas para voltar como indigentes e voltar a esse local e chorar. E mesmo se destruírem o presente, jamais apagaram o passado. Jamais. Esse direito não cabe a ninguém. Não nos matem de novo, já morremos e pagamos caro por isso, e por todo a eternidades pagaremos por isso, deixem a gente desfrutar dessa nossa casa. A Rua Javari, amigos, somos nós, os operários que construíram esse lugar, eram nós. Não pudemos desfrutar disso, por isso voltamos. Nossa alma estará sempre presa aquilo, onde um dia já foi o nosso corpo. Não matem o que um dia já foi um sonho. Não é apenas assassinar um estádio, é assassinar almas. Eu morro de novo, e espero mais setenta séculos se necessário.

Forza Juve!

* Ricardo Russini Pucci mora em São Paulo, é estocador, torce para o Juventus e é um fanático por futebol.
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