quinta-feira, 15 de outubro de 2015

'Estrangeiros' na Seleção Brasileira

* Por Lucas Paes

Amarildo: um 'europeu' na Seleção

Hoje é impossível imaginar uma seleção brasileira sem jogadores que jogam em clubes europeus. Nosso atual melhor jogador, Neymar, é atleta do Barcelona. Outros destaques jogam em clubes como Chelsea, PSG, Real Madrid, entre outros do velho continente. Porém, antigamente era raro jogadores brasileiros atuando no exterior que defendiam a Seleção Brasileira.

Nos anos 1910 era mais comum jogadores que jogassem nos clubes do Rio e de São Paulo integrassem a seleção brasileira. Já nos anos 30 apareceram jogadores de clubes argentinos e uruguaios, como Boca Juniors, Peñarol e Nacional.

Isto tem uma explicação: o futebol nos dois países vizinhos foi profissionalizado antes que no Brasil, que aconteceu em 1933. Portanto, jogadores como Martim Silveira e Luiz Luz, que jogaram no Boca e no Peñarol, respectivamente e também lendas como Domingos da Guia (Boca e Nacional) e o diamante negro Leônidas (Peñarol). E estes jogadores defenderam a Seleção Brasileira quando defendiam as equipes dos países do Rio da Prata.

Só para você ter uma ideia de como era complicada essa relação, um belo exemplo foi Julinho Botelho. Ponta-direita da Portuguesa, ele foi para a Copa de 1954. Em seguida, o atleta se transferiu para a Fiorentina, da Itália, e tinha futebol para estar no Mundial seguinte. Por estar no exterior, não era convocado. Após retornar ao Brasil, defendendo o Palmeiras, Julinho voltou para a lista de convocações e, por muito pouco, não este no Chile, em 1962.

Domingos da Guia e a leva
sul-americana dos anos 30

Falando na Copa realizada em terras chilenas, um jogador que se destacou na competição acabou se tornando um  jogador de clube europeu que foi titular da amarelinha: Amarildo. Famoso por ter substituído Pelé em 1962, após o rei do futebol ter se lesionado e perdido boa parte da competição, Amarildo fez história pelo Botafogo, clube quem mais cedeu jogadores à seleção em Mundiais, mas foi negociado com o Milan.

Suas atuações na Itália chamavam a atenção e Amarildo, mesmo no exterior, foi chamado para os jogos de preparação para a Copa de 1966. O atleta foi titular no dia 19 de maio de 1966, enfrentando a seleção do Chile em amistoso no Maracanã. O Brasil venceu por por 1 a 0, com gol de Gérson. 

Porém, na bela confusão que foi a preparação para o Mundial na Inglaterra, Amarildo ficou de fora da lista final do técnico Vicente Feola. O jogador ainda passou pelas equipes da Roma e da Fiorentina (ambas italianas) antes de se aposentar no Vasco em 1974.

Um jogador de clube europeu defendendo a Seleção Brasileira em Copa do Mundo só foi acontecer 16 anos depois. O pioneiro foi Dirceu, convocado por Telê Santana para ser um dos 22 que defenderam a camisa canarinho na Espanha. O atleta atuava no país sede do Mundial, mais precisamente no Atlético de Madrid.

Para se ter uma ideia de como essa relação mudou, oito anos depois, na Itália, apenas dois dos 11 titulares da seleção atuavam no Brasil: Taffarel, pelo Internacional, e Mauro Galvão, pelo Botafogo. Mas isto também não durou muito, pois ambos fora para a Europa, o primeiro para o Parma, da Itália, e o segundo para o Sion, da Suíça, logo após o encerramento do torneio.

Dirceu: o primeiro 'estrangeiro' em uma Copa pela Seleção

Aliás, depois da Copa na Itália, com o Brasil caindo nas oitavas-de-final, houve quem defendesse que só jogadores que atuavam aqui é que poderiam ser convocados. O Falcão, que assumiu depois do Mundial, chegou até a usar esse método no início de seu trabalho, mas convocou jogadores 'europeus' na Copa América de 1991.

Outros fatores interessantes: na década de 90, a Seleção teve jogadores atuando no Japão convocados. Inclusive um foi campeão do mundo: Ronaldão, que defendia o Shimizu. Já mais recentemente, os canarinhos tiveram presença de jogadores em atividade no Mundo Árabe, China e América do Norte.

Como podemos ver, o alto número de jogadores de clubes europeus na Seleção é algo relativamente recente. Até os anos 90, pelo menos metade dos jogadores ainda atuavam por aqui: em 1990 e 1994 haviam 11 jogadores de clubes europeus, o que representava metade dos jogadores, em 2002, o ano do penta, 11 jogavam em times europeus e 12 em times brasileiros.

Coincidência ou não, sempre que o Brasil era campeão pelo menos metade de seus convocados jogava no seu país, algo praticamente inimaginável nos dias atuais.

* Lucas Paes é estudante de jornalismo e torcedor do Santos FC.
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