sábado, 27 de junho de 2015

Um ano de Copa - Voluntário: relato de uma experiência única

Trabalho de voluntário não era apenas nos estádios

* por Rodrigo Colucci

Quando o Brasil foi escolhido para ser sede da Copa do Mundo de 2014, coloquei em minha cabeça que tinha que participar do evento de alguma forma. Pesquisei sobre oportunidades de trabalho e também sabia que havia chance de atuar como voluntário. Porém, somente em 2012, as inscrições para esse trabalho foram abertas. Logo no primeiro dia de inscrições, acessei o site da Fifa e fiz meu cadastro. Mesmo com o grande número de pessoas interessadas (mais de 100 mil), sempre tive esperanças de ser selecionado.

Fiz algumas entrevistas e fui chamado para atuar primeiramente no sorteio da Copa das Confederações, que ocorreu no Anhembi, em São Paulo. Atuei no setor de credenciamento, onde cheguei a fazer as identificações de muitas pessoas, desde funcionários da segurança e apoio até de jornalistas e personalidades famosas nacionalmente.

O setor de credenciamento foi um dos mais elogiados pela organização, pela rapidez do serviço e prestatividade dos voluntários. Também vale ressaltar que o sorteio teve um “erro”, e isso fez com que o Taiti jogasse partidas para que muitos amigos pudessem assistir. Se o sorteio tivesse sido “correto”, a seleção da Oceania não iria jogar em Minas e no Rio de Janeiro.

Trabalho também foi feito na Copa das Confederações

Após o sorteio, aconteceu a Copa das Confederações, onde a cidade de São Paulo não seria uma das sedes da competição devido o Estádio do Corinthians não estar finalizado. Então eu optei por estar atuando no Rio de Janeiro. Tinha amigos e conhecidos por lá (a grande maioria colecionadores de camisas), e consegui ficar hospedado na casa do meu grande amigo Claudio Burger, do excelente site Futrio.net, que me cedeu sua casa por quase um mês sem exigir nada em troca. Além disso, sua família também me acolheu muito bem. Tenho eterna gratidão por todos eles.

Eu inicialmente iria trabalhar no setor de Marketing, mas a área foi “extinta”, e eu também tinha pedido ao coordenador para atuar em algum outro local, devido eu ter muitas folgas, e eu queria aproveitar muito bem o evento, até pelo fato de ficar muito tempo fora de São Paulo. Então eu fui atuar no setor de hotel para auxiliar os VIP´s da Fifa. Pelo hotel, passaram grandes nomes do futebol q acompanhei nos anos 90 e 2000, como Hierro, Suker, Bebeto, Bora Milutinovic. Todos muito simpáticos e educados. Carregam com louvor a alcunha de ídolos.

Estava já no Rio quando as manifestações começaram a ter um caráter mais forte, e em alguns casos até mais agressivo. Era muito comum a Praça XV e a Av. Presidente Vargas serem interditadas por conta das manifestações. Um dia, já voltando para a casa do Claudio, fui abordado por um manifestante que veio em minha direção alucinadamente quando me viu vestido com a roupa de voluntário. Apesar de tudo, eu o enfrentei, até porque escolhi ser voluntário, ninguém havia me imposto nada, nem obrigado. Como disse acima, eu queria estar no evento de alguma forma.

Depois de inúmeros relatos de voluntários que foram hostilizados e ameaçados pelos manifestantes e por outras pessoas que eram contra o evento, fomos orientados nos uniformizarmos somente quando chegássemos ao local de trabalho. Nas poucas folgas que tive, fiz visitas a alguns clubes, como Olaria, América, Tijuca e vi dois jogos válidos pela Série C, que não parou com a Copa das Confederações: Assisti no mesmo dia Miguel Couto x Campo Grande e Condor x Esprof. Fiquei surpreso com os jogos e a estrutura de alguns times. Dificilmente os estádios que eles atuaram seriam liberados para partidas aqui em São Paulo, dada a grande exigência que é feita aqui. Fiz grandes amizades com o pessoal que trabalhou comigo, alguns daqui de SP, outros do Sul, do Nordeste e até estrangeiros.

Na Arena Corinthians

Dado o fim da competição, voltei para São Paulo e aguardei ser chamado para a Copa do Mundo. Optei por não ir para o sorteio da Copa na Costa do Sauípe por questão financeira. Também fiz várias entrevistas para a Copa, inclusive com outros idiomas, já atualizando a minha experiência no Rio de Janeiro.

Acabei sendo selecionado para atuar de novo com os VIP´s da Fifa em um hotel da Av. Paulista. Embora não fosse o que queria realmente, pois queria atuar no campo, junto com os atletas e staff, até que foi uma boa experiência, pois ali eu voltei a ver e conversar com ex-jogadores como Platini, Raí, Paulo César (ex-lateral de Flamengo, Fluminense, Taboão da Serra e outros que já me conhecia dos jogos que costumo ir), Ronaldo, Zidane, dentre outros.

A princípio iria trabalhar apenas no hotel, mas devido a complementação de quórum, em dias de jogos fui chamado junto com minha parceira Alexandra (que após isso virou uma grande amiga) a atuar também no estádio. Com isso, aproveitei e fiz mais contatos e também conheci a atmosfera de perto. Sentir o clima de jogo, as autoridades chegando, toda a logística feita para esse pessoal poder entrar no estádio sem problemas foi desafiador e também interessante.

No dia do jogo Coreia do Sul x Bélgica (que foi o único jogo que busquei ingressos para comprar de forma efetiva), estive lá e consegui o meu ingresso nos últimos instantes. Não conseguindo comprar, consegui numa última hora, graças a uma pessoa que tenho eterna gratidão. Mesmo para mim, que vejo jogos quase que toda a semana, de quaisquer competições, estar numa Copa do Mundo é o supra-sumo de tudo. No mesmo dia, ao conseguir o ingresso para a partida, também fui escalado para participar do ensaio de entrada dos times. Aquele protocolo de entrada dos jogadores com as crianças, os hinos e os cumprimentos são ensaiados à exaustão. Fiquei muito emocionado ao estar fazendo parte daquilo. Até um “cisco” caiu no olho nessa hora.

Enfim, foi um momento muito especial para mim. Estava plenamente realizado. Nem me importava em ver final, semifinal ou outro jogo. Para mim, aquilo já estava sendo o suficiente. Aquele mês foi muito proveitoso, tanto profissionalmente, como pessoalmente. Quando acabou a Copa e “voltei para a realidade”, senti estranheza, o que faz com que quisesse viver tudo de novo ou voltar no tempo.
  

* Rodrigo Colucci, 32 anos, é gestor esportivo, mora em São Paulo e torce para o São Paulo FC.
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