sábado, 18 de abril de 2015

Feitiço: o jogador que desafiou até o presidente da República

Feitiço, um grande goleador

Os anos 20 e 30 para o futebol brasileiro foi marcado por jogadores com histórias interessantes, que marcavam não só pelo o que jogava como também por suas posturas contestadoras. Um desses era Luís Macedo Matoso, o Feitiço, que marcou época jogando na AA São Bento, Santos FC, Corinthians, Peñarol, Vasco da Gama e Palestra Itália.

Feitiço nasceu em 29 de setembro de 1901, em São Paulo e foi criado no bairro do Bexiga, onde aos 16 anos começou a jogar futebol em detrimento à bocha, até então seu esporte favorito. O apelido "Feitiço" deve-se a uma menina que assistia aos jogos do centroavante no bairro e dizia que "o Luizinho parece um feitiço quando joga".

A fama de finalizador nato de Feitiço já corria entre os boleiros da capital paulista e o Corinthians o convidou para jogar um amistoso em 1921, onde marcou um gol. Porém, logo em seguida o centroavante foi para a Associação Atlética São Bento, o time da Praça da República, e o seu futebol cresceu ainda mais, sendo artilheiro do certame estadual por três vezes (1923-24-25).

Foi no extinto clube que conseguiu seu primeiro título da carreira: o campeonato paulista de 1925. Nesse mesmo ano, o centroavante teve sua primeira passagem pelo Palestra Itália (hoje Palmeiras), emprestado junto ao São Bento, e fez parte das duas primeiras excursões internacionais da história do Verdão, para o Uruguai e Argentina, respectivamente.

Em 1927, foi contratado pelo Santos, onde entraria para o famoso ataque dos cem gols, formado por Osmar, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista. Este time marcou cem gols em dezesseis partidas, obtendo assim uma média que até hoje é recorde mundial de gols marcados em uma competição oficial (6,25 gols por partida). Feitiço marcou gols nos onze primeiros jogos do time, inclusive com quatro gols na mesma partida por duas vezes e três gols em quatro oportunidades.

Time do Santos dos cem gols de 1927

Nesse Paulistão, Feitiço protagonizou uma cena inusitada. O Santos havia perdido por 6 a 5 um amistoso para o Guarani, após estar vencendo por 5 a 0. Meses depois, no reencontro das equipes pelo Campeonato, o alvinegro abriu 5 a 0 novamente, no primeiro tempo. No segundo, após driblar três adversários, Feitiço ficou com o gol aberto. Ele parou a bola em cima da linha, ergueu as duas mãos, uma com todos os dedos levantados e a outra apenas com o indicador erguido, em referência ao sexto gol que estava por ser marcado. A partida foi encerrada com 10 a 1 em favor dos santistas, com três gols de Feitiço.

Mas Feitiço seria punido pela Associação Paulista de Esportes Amadores (Apea) por outro fato inusitado. O Campeonato Paulista fora interrompido para a disputa do Campeonato Brasileiro de Seleções estaduais. Na final, entre Rio de Janeiro e São Paulo, disputada em 13 de novembro, no Estádio São Januário, o placar estava empatado, com um tento pra cada lado. Aos 29 minutos do segundo tempo, o árbitro Ari Amarante marcou pênalti de Bianco a favor dos cariocas.

Aí vem toda a confusão. Os jogadores paulistas, irritados com a marcação, cercaram o árbitro, povoaram a área e não deixaram a cobrança ser feita. O presidente da república, Washington Luis, que assistia à partida das tribunas, ordenou que a partida fosse reiniciada. Um mensageiro do presidente foi até o campo e passou a ordem para os jogadores. Feitiço, irritado, mandou outra mensagem: “Diga ao presidente que ele manda no país. Na seleção paulista mandamos nós”.

Após alguns meses suspenso, Feitiço voltou defender a camisa do Santos até 1931. Em todo este tempo, o centroavante foi artilheiro do Paulistão por mais três vezes. Sua marca de seis vezes artilheiro estadual só foi batida por Pelé. Ainda no Santos, foi tri vice campeão Paulista (1927-28-29), não conseguindo levantar um título com a camisa do time praiano.

Feitiço defendendo o Peñarol

Apesar de todo sucesso, Feitiço não estava entre os jogadores paulistas que foram pré-convocados para a Seleção Brasileira que iria disputar a Copa de 30. No final, devido a confusão entre Apea e CBD, apenas um jogador paulista foi para a Copa, o companheiro de time de Feitiço, Araken, desafiando os cartolas bandeirantes. Pela Seleção, Feitiço fez apenas quatro jogos, marcando seis gols.

Ao sair do Santos, Feitiço passou pelo Corinthians, fazendo seu primeiro jogo com a camisa alvinegra ainda em 1931 .o atacante fez sua primeira partida com a camisa alvinegra. Um amistoso contra um combinado Sírio/Germânia vencido pelos paulistas por 4 a 1. Feitiço fez um dos quatro gols do Timão. Neco e Américo completaram a goleada e Viola descontou para o combinado.

A saída do Corinthians foi conturbada. Em um amistoso contra o Uberaba cobrou um pênalti propositalmente para o lado quando o placar já apontava 3 a 0. O jogador recebeu uma proposta irrecusável do futebol uruguaio e foi defender o Peñarol.

Jogando pelo clube carbonero, Feitiço recebeu a alcunha de artilheiro, que quando voltou ao Brasil acabou virando sinônimo de jogador goleador. Nesse período conquistou o Campeonato Uruguaio de 1935 e ainda tornou-se o primeiro estrangeiro a defender a Celeste Olímpica, em seis oportunidades.

Anúncio da estreia de Feitiço pelo Vasco

Voltando ao Brasil, Feitiço ainda defendeu o Vasco da Gama, ganhando o título de campeão carioca de 1936, seu segundo título estadual. Teve ainda uma passagem pelo Palestra Itália, entre 1938 e 1940, e encerrou a carreira no final desse ano, pelo São Cristóvão, do Rio de Janeiro. Ao todo, marcou mais de quatrocentos gols em sua carreira.

Sua fama era tão grande que influenciou adeptos do futebol de São Vicente a fundar o Feitiço Atlético Clube, em 1928, que anos depois viria a ser o São Vicente Ao Vicente a fundar o iou adeptos do futebo tlético Clube, agremiação filiada à Federação Paulista de Futebol e que disputou a Segunda Divisão Paulista (equivalente a quarta) em 2014.
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